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A PILHA DE ALESSANDRO VOLTA (1745-1827): DIÁLOGOS E CONFLITOS NO FINAL DO SÉCULO XVIII E INÍCIO DO SÉCULO XIX

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RENATA SAPONARA BONI

A PILHA DE ALESSANDRO VOLTA (1745-1827): DIÁLOGOS E CONFLITOS

NO FINAL DO SÉCULO XVIII E INÍCIO DO SÉCULO XIX.

Dissertação de Mestrado apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para a obtenção do título de MESTRE em História da Ciência, sob a orientação da Professora Doutora Márcia Helena Mendes Ferraz.

PUC-SP São Paulo

2007

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BANCA EXAMINADORA

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Autorizo, exclusivamente para fins acadêmicos e científicos, a reprodução

total ou parcial desta dissertação / tese por processos de fotocópias ou

eletrônicos.

Ass: Data: __ /__ /__

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À Giulia, cujo sorriso ilumina meus dias.

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AGRADECIMENTOS

À Professora Doutora Márcia Helena Mendes Ferraz pela orientação, pelo

carinho e principalmente pela paciência com as minhas dificuldades. Seu apoio foi

fundamental para a realização desse sonho.

Ao meu marido Emerson e minha filha Giulia, pela compreensão em relação

às ausências e pelo apoio nos momentos de dificuldades.

À minha família, em especial aos meus pais, Osvaldo e Jeanete, minha avó,

Guiomar e meus irmãos, Marcelo e Márcio, pelo amor incondicional e incentivos

constantes.

Ao Fumi e à Susy, muito mais que amigos, pela revisão cuidadosa do texto.

Aos professores e professoras do Grupo de Pesquisa em Ensino de Física

que abriram meus horizontes para a História da Ciência, em especial, a amiga

Sueli e a Prof.ª Drª Jessuína L.A.Pacca,

Aos amigos e incentivadores do colégio Padre Moye, pela compreensão em

relação aos meus conturbados horários.

Aos amigos do curso, em especial, Elisabete, Mariana e o Alexandre, pelo

carinho com que ouviam as minhas idéias.

À CAPES pela bolsa concedida.

Aos professores e professoras do Programa de Estudos Pós Graduados em

História da Ciência pelos imprescindíveis comentários para minha formação,

assim como ao Centro Simão Mathias de Estudos em História da Ciência, pela

documentação e atenção com os pesquisadores.

Por fim, agradeço a todas as pessoas de que de uma forma ou de outra

ajudaram na conclusão do trabalho.

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RESUMO

O propósito desta dissertação é analisar determinados aspectos da teoria

de contato de Alessandro Volta (1745-1827), focalizando, especialmente, as

observações voltianas relativa à construção da pilha. Para tanto, partimos de

algumas considerações acerca da obra Le Opere di Alessandro Volta, que foi

publicada entre 1918-1927, reunindo memórias, cartas, textos, artigos publicados

e manuscritos. Procuramos apontar para o fato de que a pilha foi apresentada em

1800 com o intuito de divulgar a teoria de contato e contrapor-se à teoria da

eletricidade animal proposta por alguns contemporâneos de Volta. Desse modo,

procuramos analisar as possíveis razões que motivaram Volta a propor a teoria de

contato, bem como apresentar alguns pressupostos teóricos, que permearam a

sua elaboração. Quanto à divulgação da teoria, procuramos abordá-la a partir de

algumas opiniões tecidas pelos contemporâneos de Volta e de historiadores da

ciência para, enfim, concluirmos esta pesquisa.

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ABSTRACT

The purpose of this dissertation is to analyze some aspects of the contact

theory of Alessandro Volta (1745-1827) pointing out his observations related to the

construction of the battery. We have focused our attention on Volta’s works which

were organized in Le Opere di Alessandro Volta, published between 1918-1929, in

which we may find memoirs, letters, texts, articles and manuscripts. We have

showed indications that the battery was presented in 1800 to make public the

contact theory in opposition to the animal electricity theory proposed for some of

Volta’s contemporaries. Regarding this, we sought to analyze some reasons that

could have stimulated Volta to propose his theory as well as to present some

Volta’s theoretical assumptions which led him to formulate it. Furthermore, to

conclude this work, we have tried to analyze the spread of Volta’s theory departing

from some opinions of his contemporaries and of other historians of science.

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO.........................................................................................1

CAPÍTULO 1. Le opere di Alessandro Volta: aspectos gerais.................6

CAPÍTULO 2. Alessandro Volta e a pilha...............................................17

2.1. As motivações de Volta para a construção da pilha....................19

2.2. A construção da pilha..................................................................39

2.3. As idéias de Volta sobre a ação química da pilha.......................48

2.3.1. Alguns pressupostos teóricos...........................................50

2.3.2. As ações químicas da corrente elétrica............................60

CAPÍTULO 3. O contexto da divulgação da pilha..................................67

3.1. Os diálogos e debates com outros estudiosos...........................69

3.2. A divulgação na sociedade.........................................................81

CONSIDERAÇÕES FINAIS...................................................................92

BIBLIOGRAFIA......................................................................................95

ANEXO.................................................................................................102

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1

INTRODUÇÃO

Em meados do século XVIII, era grande o interesse pelos fenômenos

elétricos na Europa e, é nesse ambiente que Alessandro Giuseppe Antonio

Anastácio Volta (1745-1827) nasceu, realizou suas pesquisas com a eletricidade

e, principalmente, construiu seus aparatos. 1

A imagem, a seguir, representa mais do que as palavras, todos os anos

dedicados à ciência. Nela podemos ver símbolos importantes do trabalho de

Volta: em suas mãos vemos um livro que representaria os anos dedicados às

pesquisas e; na mesa, uma pilha e um condensador (um eletróforo oportunamente

modificado), aparelhos construídos por Volta que, naquela época, foram muito

utilizados.

1 Alessandro Giuseppe Antonio Anastásio Volta nasceu em 18 de Fevereiro de 1745 na cidade de Como e

faleceu em 5 de Março de 1827; a esse respeito, consulte: J.C. Heilbron, “Volta, Alessandro Giuseppe

Antonio Anastasio”, in C.C. Gillispie, org., Dictionary of Scientific Biography, Vol. 13, pp. 69-82.

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2

Figura 1 - Alessandro Volta (1745-1827) 2

2 Retrato a óleo de Alessandro Volta realizado em sua velhice de propriedade da família de Volta, publicado

em 1918 no Le Opere di Alessandro Volta, Edizione Nacionale, Vol. 2, páginas iniciais. Imagem obtida na

internet no site http://echo.mpiwg-berlin.mpg.de/content/electricity/volta em 11/06/2006.

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3

Sabemos que a obra de Volta já foi muito explorada, como podemos

verificar no artigo de Geórgia Santangelo. Entretanto, observamos que alguns

aspectos sobre as explicações químicas da pilha voltaica têm despertado a

atenção dos historiadores somente nos últimos anos. 3

Neste trabalho procuramos apresentar algumas concepções químicas de

Volta no que diz respeito à pilha. Para tanto, esta dissertação está dividida em três

capítulos. No primeiro, procuramos dar atenção especial às correspondências e

aos experimentos de Volta apresentando a organização de Le Opere di

Alessandro Volta. 4

Uma das possíveis motivações que levaram Volta a construção da pilha

foram as discussões sobre a teoria de eletricidade animal proposta por Luigi

Galvani (1737-1798). Após algumas investigações, Volta estabelece

experimentalmente uma relação entre certos materiais, e posteriormente elabora a

teoria de contato em contraposição à teoria de eletricidade animal. A busca de

Volta pelo entendimento da natureza de eletricidade gerada pelo seu eletromotor

está diretamente relacionada com a construção da pilha. Desse modo, o segundo

3 Com relação à bibliografia geral sobre Volta ver em G. Santangelo & C. Garbarino. “General Bibliography

on Alessandro Volta”, in F. Bevilacqua, org., Nuova Voltiana: Studies on Volta and his Times, Vol. 4, pp.

117-180; Sobre os estudos químicos ver, por exemplo, V. Mosini. “When Chemistry Entered the Pile”. in F.

Bevilacqua, org., Nuova Voltiana: Studies on Volta and his Times, Vol. 5, pp. 117-132. 4 A Edizione Nazionale desse livro encontra-se sobre a cura da Reale Accademia dei Lincei e do Reale

Instituto Lombardo de Ciência, escrito em 7 volumes, Milão, 1918-1929. Sendo utilizado no trabalho esta

publicação e para demais consultas a versão publicada em 1927, pela Associazione Elettrotecnica Italiana.

Mais detalhes ver capítulo 1 dessa dissertação.

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4

capítulo apresenta o contexto e alguns pressupostos teóricos que permearam a

elaboração da idéia de eletricidade metálica proposta por Volta.

Ainda no capítulo dois, visando à compreensão das idéias de eletricidade e da

Química 5 na Europa, na virada do século XVIII para o XIX, foram analisados os

trabalhos de estudiosos, como Galvani e Joseph Priestley (1733-1804) a partir dos

historiadores da ciência: Roberto de Andrade Martins, Ferdinando Abbri, Ana

Maria Alfonso-Goldfarb e Márcia Helena Mendes Ferraz cujas referências

encontram-se na bibliografia.

No terceiro capítulo, evidenciaremos alguns aspectos de cunho

experimental do trabalho de Volta. Professor de Física Experimental. Volta

mostrou-se preocupado com a precisão dos instrumentos, buscou equipar o

gabinete de Física da Universidade de Pavia do qual foi responsável entre 1778 e

18196, ambiente este onde demonstra e divulga para os estudiosos suas idéias e

seus aparatos.

Procuramos mostrar, ainda no capítulo três, que a construção da pilha

sugere um movimento que ultrapassa os limites da invenção, do instrumento, da

técnica e da experiência física. Dito de outro modo, a pilha parece ter

5 No século XVIII o corpus da Ciência Química estabelecia-se, apesar de algumas Enciclopédias delimitarem

seu campo de atuação, os limites ainda não estavam bem definidos e não podemos observá-la como a Ciência

Química do século XXI. 6 De fato, em 1804, Pietro Configliachi (1777-1844), oficialmente sucedeu Volta no gabinete de Física, porém

Volta continuou na Universidade interferendo no gabinete e na compra de equipamentos, sendo seu último

registro oficial um inventário em 1819. Para maiores detalhes: G. Bellodi & P. Brenni, “The “Arms of the

Physicist”: Volta and Scientific Instruments”, in F. Bevilacqua, org., Nuova Voltiana: Studies on Volta and

his Times, Vol. 3, pp. 1-40.

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5

impulsionado diálogos com a química e a sociedade científica que, naquela época,

estava interessada nas elaborações teóricas baseadas no estudo da Eletricidade,

chegando a ter interlocutores em diferentes países. Para isso, procuramos

analisar alguns estudos historiográficos que discorreram sobre o impacto da obra

de Volta na cultura italiana e germânica.

A pesquisa da construção de um conceito de corrente elétrica, bem como a

elaboração da teoria de contato proposta por Volta, são importantes para que

possamos entender a eletricidade. As idéias que este trabalho pretende discutir

são influentes há cerca de 200 anos e ainda hoje estão em debate. Portanto, do

ponto de vista da História da Ciência, será importante desmitificar Alessandro

Volta como o gênio da eletricidade, para então considerá-lo como um dos

importantes interlocutores responsáveis por tais idéias, fundamentais nesse

campo de estudo.

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6

CAPÍTULO 1. Le Opere di Alessandro Volta: aspectos gerais

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7

Figura 2 – Página de rosto do livro Le Opere di Alessandro Volta7

7 Imagem do livro U. Hoepli, ed., Le Opere di Alessandro Volta, Edizione Nacionale, Vol.1, obtida na internet

no site http: //ppp.unipv.it/Volta/Pages/Page3.html em 11/06/2006.

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8

A historiografia atual tem orientado no sentido de que as obras escritas e

publicadas em determinadas épocas são frutos de seu contexto histórico, e

acreditamos que não poderia ser diferente. 8 Nesse sentido, iniciamos essa

dissertação apresentando alguns aspectos da organização da obra Le opere di

Alessandro Volta na medida em que queremos apontar novos caminhos para a

leitura da mesma.

Levantamentos acerca das obras de Volta já foram realizados

anteriormente. Dentre eles, destacamos aquele realizado por G. Santangelo que

mostra-nos que muitas bibliografias gerais foram escritas sobre Volta e seus

estudos9. Porém, mais do que uma relação de obras e estudos, tal levantamento

8 Sobre a historiografia atual, ver o artigo: A. M. Alfonso-Goldfarb & M. H. M. Ferraz & M. H. R. Beltran,

“A historiografia contemporânea e as ciências da matéria: uma longa rota cheia de percalços”, in A. M.

Alfonso-Goldfarb & M. H. R. Beltran, org., Escrevendo a História da Ciência: tendências, propostas e

discussões historiográficas, pp. 49-73. 9 G. Santangelo & C. Garbarino, op.cit., pp. 117-180.

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9

serviu-nos de referência para decodificar os diversos termos com os quais tais

obras foram citadas pelos estudiosos em diferentes períodos.

Entre as várias pessoas que se dedicaram às pesquisas sobre Volta, uma

delas, provavelmente o primeiro, foi seu próprio filho, Zanino Volta (1795-....), que

realizou mais de vinte publicações de textos, notas e cartas no período que

compreende o final do século XVIII e início do século XIX.10 Cerca de um século

mais tarde um outro historiador da ciência importante, Aldo Mieli publicou o livro

Volta y el Desarrollo de la Eletricidad hasta el Descubrimiento de la Pila y de la

Corriente Eléctrica, que foi largamente difundido. 11 Ademais não podemos deixar

de citar John L. Heilbron, que dedicou vários anos de sua vida às pesquisas

voltianas, cujos trabalhos publicados entre 1978 e 2001 são de grande valia.

Somando a isso, na busca por acesso a diversas abordagens historiográficas, não

poderíamos deixar de lado a coleção publicada em 2000, dedicada às

comemorações do bicentenário da pilha, por Fábio Bevilacqua e Lucio Fregonese

sob o título Nuova Voltiana: Studies on Volta and his times. No Brasil, cabe

destacar o historiador R. A. Martins que publicou artigos sobre aspectos da obra

voltiana.12

Esta pesquisa se concentra em algumas partes do Le Opere di Alessandro

Volta, Edizione Nazionale, organizada pela Reale Accademia dei Lincei e do Reale

10

Levantamento feito a partir do artigo: G. Santangelo & C. Garbarino, op.cit., pp. 117-180. 11

A. Mieli, Volta y el desarrollo de la eletricidad y de la Corriente Eléctrica , pp. 13-146. 12

Os títulos dos artigos, sobre essas abordagens historiográficas, encontram-se na Bibliografia dessa

dissertação.

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10

Instituto Lombardo de Ciência, e que consta de 7 volumes. 13 Tais volumes foram

organizados por temas e o índice já nos mostra que as obras foram colocadas em

ordem cronológica, incluindo também transcrições de manuscritos. 14 Além disso,

cabe observar que os manuscritos foram divididos em dez categorias, que foram

subdivididas em vinte classes, tal como mostra a figura 3.

13

Respectivamente os anos de publicação dos 7 volumes são: Vol.1-1918, Vol.2-1923, Vol.3-1926, Vol.4-

1927, Vol.5-1928, Vol.6-1928 e Vol.7-1929. 14

Tal como foi descrito nas páginas iniciais do volume 1 da obra, no início de 1907, a maioria dos

manuscritos foram examinados e organizados como era possível, segundo uma ordem cronológica,

observando datas e acontecimentos. Sobre isso ver U. Hoepli, ed., Le Opere di Alessandro Volta, Edizione

Nacionale, Vol. 1, p. IX.

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11

Figura 3 - Páginas iniciais do Le opere di Alessandro Volta 15

15

Imagem do livro U. Hoepli, ed., Le Opere di Alessandro Volta, Edizione Nacionale, Vol. 1, p. XV, obtida

na internet no site http: //echo.mpiwg-berlin.mpg.de/content/electricity/volta em 25/08/2006.

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12

No que diz respeito a essa classificação, poderíamos levantar questões

sobre os critérios que foram utilizados. Por exemplo, a classe G, na qual aparece

o termo química, vem precedida dos termos pneumática e eudiometria. Isso

sugere que a classificação aqui em pauta apresenta um Volta “Físico”,

privilegiando, dentre os seus estudos, a sua pilha. E, parece que não poderia ser

diferente, pois o estudioso italiano é conhecido principalmente por este trabalho.

Somado a isso, um outro aspecto que podemos apontar é a escolha do tema do

primeiro volume. Segundo a divisão estabelecida por J. L. Heibron16 nos primeiro e

segundo volumes, encontramos maioria dos estudos sobre a eletricidade animal e

o galvanismo.17 Convém ainda observar que não encontramos nenhuma carta

catalogada como G, mas sim quase 600 páginas que tratam sobre a eletricidade

animal. Em suma, tudo isso parece dar indícios das razões pelas quais Volta teria

sido visto pela comunidade como o físico “gênio” da pilha.

Ao interpretar a história da ciência no período que os organizadores

publicaram a obra Le Opere di Alessandro Volta, A. M. Alfonso-Goldfarb dá

indícios de que eles foram influenciados pelo contexto no qual estavam inseridos.

18 A autora observa que, naquele período eram comuns histórias de grandes

descobertas e de grandes gênios científicos. Assim algumas figuras brilhavam

16

J.C. Heilbron, “Volta, Alessandro Giuseppe Antonio Anastasio”, in C.C. Gillispie, org., Dictionary of

Scientific Biography, Vol. 13, pp. 69-82. 17

Segundo a divisão estabelecida por J. Heilbron, no terceiro volume e parte de quarto volume, os trabalhos

de eletrostática, no quinto volume os estudos de meteorologia, e por fim os estudos pneumáticos nos últimos

volumes. 18

A. M. Alfonso-Goldfarb, O que é História da Ciência, pp. 68-91.

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13

como exemplos maiores, pois, naquela época, era corrente a idéia de que tais

figuras tinham criado uma ciência que servira de modelo às demais ciências.

Segundo A. M. Alfonso-Goldfarb:

“Assim, fosse qual fosse o tópico ou o campo da ciência abordado,

nomes como o de Newton acabavam aparecendo quase

obrigatoriamente. O modelo da física, como um fantasma, assombrava

todas as outras histórias da ciência. Continuava havendo, por outro

lado, uma busca seletiva em épocas antigas de idéias e teorias que

tivessem evoluído até chegar à ciência moderna.” 19

Além disso, A. M. Alfonso-Goldfarb ressalva que, se um historiador da

medicina estudava a obra de Arnaldo de Vilanova, varria para debaixo do tapete

suas possíveis obras sobre alquimia. 20 Mas a autora observa que tal tendência

tem mudado e, no livro Da Alquimia a química, aponta para, entre outras coisas,

trabalhos originais como, por exemplo, da historiadora Betty Jô Teeter Dobbs,

grande estudiosa de Isaac Newton (1642/3-1727), que equipara a obra alquímica

deste ao restante de seus trabalhos científicos.21 Ou seja, aspectos antes

desprezados passando a ser considerados e os historiadores da ciência procuram

verificar o lugar de cada estudioso em sua época.

19

Ibid., p. 71. 20

Ibid., p. 72. 21

A. M. Alfonso-Goldfarb, Da Alquimia à Química: um estudo sobre a passagem do pensamento mágico-

vitalista ao mecanicismo, p. 198.

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14

Tendo isso em vista, no que diz respeito à obra de Volta, a sua organização

não poderia ter sido diferente, pois, na época em que foram organizadas, a busca

pelo pai da pilha era mais importante e significativo do que outros aspectos do

trabalho de Volta. Desse modo, podemos dizer que, nas devidas proporções, os

organizadores da obra, emprestando as palavras de Alfonso-Goldfarb, “varreram

para baixo do tapete”, ou deixaram para o final da obra os estudos de Volta que

consideraram menos significativos. E, entre tais estudos, encontramos aqueles

dedicados à química.22 Desse modo, compreende-se que ao valorizar o físico da

pilha, os organizadores da obra deixaram de lado outros estudos não de menor

valor ou incompletos, mas sim ricos de conhecimento .

De fato, como nos adverte os historiadores A. Mieli e F. Abbri, a

investigação sobre os pensamentos e pesquisas de Volta em química parece ter

sido prejudicada pela organização de seu material e posterior publicação. 23 A

esse respeito, observa F. Abbri que a química foi considerada em segundo plano

no programa científico de Volta e nos lembra que é difícil precisar termos como

físico, química e filósofo natural, pois, no final do século XVIII e início do século

XIX, a chamada ciência experimental não se constituía ainda como um sistema de

disciplinas bem definidas.24 Veremos, mais adiante, que há pouco tempo surgiram

22

Analisando a obra Le opere di Alessandro Volta, notamos que a classe G, como foi classificada, aparece

nos volumes VI e VII. 23

A. Mieli, op. cit., pp. 1-17; F. Abbri, “Voltas’s Chemical Theories: The First Two Phases”, in F.

Bevilacqua, org., Nuova Voltiana: Studies on Volta and his Times, Vol. 2, pp. 1-14. 24

F. Abbri, op. cit., p. 1.

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15

discussões sobre as ações químicas da pilha. Cabe observar, porém, que há

muito ainda para se investigar sobre o assunto.

Esta não é, entretanto a única obra de Volta a ser editada. Pois, cabe ainda

observar que, outras quatro coleções da obra de Volta são citadas e comentadas

pelos historiadores: L’Opera di Alessandro Volta, publicada em 1927, editada por

Francesco Massardi sob a coordenação da Associazione Elettrotecnica Italiana,

por ocasião do centenário da construção da pilha; a publicação de Opere Scelte di

Alessandro Volta, editado por Mario Gliozzi em 1967; Epistolário di Alessandro

Volta, em 5 volumes, editado por Francesco Massardi entre 1949 e 1955 e, por

fim, Aggiunte alle opere e tutti epistolário di Alessandro Volta de 1966.25 . Em

muitos estudos dedicados a Volta, encontramos referências a Opere I que

acreditamos ser, por comparação a essas edições, a obra Le opere di Alessandro

Volta, de 1918-1929, citada simplesmente como Opere seguida do volume.

Nesta pesquisa, procuramos investigar sobre as explicações químicas da

pilha de Volta. Para tanto, o nosso estudo concentrou-se nos volumes I e II do Le

opere di Alessandro Volta. Consideramos também alguns textos dos volumes III,

VI e VII do referido livro, por nos trazerem informações importantes, para nossa

pesquisa.

25

Com a oportunidade de acesso há Universidades e projetos no exterior, muitos materiais estão disponíveis

na internet como o microfilme digitalizado que contém quatro dos volumes do Le opere di Alessandro Volta

pelo projeto ECHO-European Cultural Heritage Online. O referido projeto pode ser consultado no site http:

//echo.mpiwg-berlin.mpg.de/content/electricity/volta e encontramos parte da mesma obra em Opere Scelte di

Alessandro Volta digitalizada, porém, sem paginação no projeto PPP-Pavia Project Physics. Esse projeto pode

ser consultado em inglês e em italiano no site http: //ppp.unipv.it/Volta/. Cabe salientar que atualmente,

encontramos as siglas VO (Le Opere) e VE (Epistolário) e VA (Aggiunte) em alguns artigos.

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CAPÍTULO 2. Alessandro Volta e a pilha

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Figura 4 – Parte do manuscrito da carta de Volta enviada a Sir. Joseph Banks26

26

Imagem do livro U. Hoepli, ed., Le Opere di Alessandro Volta, Edizione Nacionale, Vol. 1, p. 573, obtida

na internet no site http: //echo.mpiwg-berlin.mpg.de/content/electricity/volta em 25/08/2006.

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Neste capítulo, procuramos analisar como Alessandro Volta entendia a

natureza da eletricidade. Apesar do grande interesse pelos fenômenos elétricos e

das inúmeras tentativas de elaborações teóricas, sugeridas no final do século

XVIII, período que compreendia os estudos e as pesquisas de Volta, a natureza da

eletricidade e afinidade entre as substâncias não estavam elucidadas.

2.1. As motivações de Volta para a construção da pilha

De acordo com A. Mieli, entre todos os temas científicos, aos quais Volta

dedicou-se desde a mocidade, os estudos sobre a eletricidade particularmente o

atraíam. Em particular nesse período, ele teria realizado muitas experiências

juntamente com seu amigo Giulio Cesare Gattoni (1741-1809), que tinha em sua

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casa um laboratório experimental muito bem equipado. 27 A. Mieli salienta que as

pesquisas de Volta sobre eletricidade iniciaram-se cedo, segundo o autor apesar

de não termos essa carta, poderíamos supor que em 1763, Volta teria tido a

ousadia de escrever ao abade Jean-Antoine Nollet (1700-1770) uma carta, onde

teria exposto uma teoria elétrica completa, baseando-se sobre a teoria newtoniana

da gravitação.28 De fato, podemos supor que essa carta teria existido pois, na

dissertação epistolar Della Forza Attrattiva del Fuoco Elettrico e dei Fenomeni che

ne Dipendono datada de 18 abril 1769, que Volta endereçou ao padre Giovanni

Batista Beccaria (1716-1781), além de mencionar, os estudos sobre fenômenos

elétricos em que vinha se dedicando, Ele escreve: “Já em 1763 comuniquei minha

opinião ao ilustre J. A. Nollet, mas desde aquele tempo, não realizei nenhum

experimento.” 29

Provavelmente em 1763, Volta teria escrito também para o padre G. B.

Beccaria porque, no seu primeiro escrito científico, uma carta de Volta endereçada

ao referido padre, datada de 2 de abril de 1765, Volta faz referências sobre tal

carta anterior. Ele comenta:

“Espero encontrar o agrado e a aprovação, tanto quanto poderá ver,

do que eu vou me referir, sobre a minha determinação, como você me

27

A. Mieli, op. cit., pp. 21-25. 28

Ibid., p. 48. A respeito ver: A. Volta, Epistolário apud R.W. Home, “Volta`s English Connections”, in F.

Bevilacqua, org., Nuova Voltiana: Studies on Volta and his Times, Vol. 1, p. 117. 29

A. Volta, Della Forza attrattiva del fuoco elettrico e dei fenomeni che ne dipendono. Opere Scelte

http://ppp.unipv.it/volta/Pages/Page3.html

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sugeriu, vou impor em todas as minhas investigações, a experiência,

antes de abandonar-me aos caprichos de meus pensamentos.”30

Nesta carta, Volta escreveu sobre os fenômenos elétricos que ocorriam

após esfregar ou atritar certos materiais, e suas aplicações. Para ele, entre o

vidro, que se eletrizava por excesso, e o enxofre, que se eletrizava por defeito,

existia uma relação. Assim, ele escreve a respeito de uma escala31, que ele teria

determinado experimentalmente, entre alguns materiais: “[...] em primeiro lugar, os

pelos de gato, [...], de um cavalo, etc. e se combinam com a natureza do

vidro[...]”.32

Dentre as motivações que levaram Volta a construir a pilha podemos

considerar o interesse despertado durante todos os anos dedicados aos

experimentos com fenômenos elétricos, à construção de aparelhos e aos diálogos

com seus contemporâneos. Como veremos mais adiante, um dos fatores que,

provavelmente, estava relacionado com a construção da pilha, era a idéia de

eletricidade animal que tinha sido estabelecida na segunda metade do século

XVIII por alguns estudiosos. Tal idéia teria surgido a partir das observações de

fenômenos que ocorriam em experiências com certos animais. Sabia-se, por

30

A.Volta, “Lettera al Padre Giovanni Battista Beccaria 1765”, in U. Hoepli, ed., Le Opere di Alessandro

Volta, Edizione Nacionale, Vol. 3, p. 3. 31

Essa investigação nos chama a atenção porque, depois de quase trinta anos, Volta escreveu sobre a escala

dos metais que se colocados em contato, determinam uma diferença que causa a força eletromotriz. 32

A.Volta, “Lettera al Padre Giovanni Battista Beccaria 1765”, in U. Hoepli, ed., Le Opere di Alessandro

Volta, Edizione Nacionale, Vol. 3, p. 7.

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exemplo, que a enguia33 era capaz de dar choques e que eles eram semelhantes

aos efeitos de outros fenômenos elétricos. 34

Os estudos sobre a eletricidade animal 35 eram realizados em alguns

departamentos, como Bolonha e Pavia. Porém, dentre os estudiosos que se

voltaram à questão da eletricidade dos animais, L. Galvani 36 tornou-se porta-voz e

defensor árduo dessa teoria. Entretanto, cabe observar que, como salienta Walter

Bernardi, já existiam estudos sobre o assunto:

“[...] Como conhecemos, Luigi Galvani não foi o primeiro a usar os

choques elétricos produzidos por músculos de animais vivos ou mortos

e a discutir a existência da “eletricidade animal”. A hipótese de uma

“eletricidade animal”, ou, como era chamado no século XVIII, de um

“fluído neuro-elétrico” que fluía dos nervos causava a contração dos

músculos, não era de certa forma uma novidade.” 37

W. Bernardi salienta ainda que:

“Entre os cientistas que estavam interessados no assunto da

eletricidade animal antes de Galvani os mais famosos são: Frenchman

33

Existem alguns peixes que são chamados de peixes elétricos, como o torpedo ou raia elétrica (torpedo

marmorata) e o gimnoto ou enguia elétrica (gymnotus electricus). Picton, B.E. & Morrow, C.C., 2005, in

Encyclopedia of Marine Life of Britain and Ireland . 34

R. Martins, “O contexto da Invenção e Divulgação da Pilha Elétrica por Alessandro Volta”, in J. L.

Goldfarb & M. H. M. Ferraz, eds. , Anais do VII Seminário Nacional de História da Ciência e da Tecnologia

e da VII Reunião da Rede de Intercâmbios para a História e a Epistemologia das Ciências Químicas e

Biológicas, p. 288. 35

Eletricidade animal - termo cunhado pelo médico francês Bertholon (1741-1816), junto com o italiano

Giuseppe Gardini (1740-1816) defendiam a existência de uma eletricidade própria dos corpos animais. 36

T. H. Brow, “Galvani, Luigi”, in C.C. Gillispie, org., Dictionary of Scientific Biography, Vol.12, pp. 267-

269. 37

W. Bernardi, “The Controversy on Animal Electricity in Eighteenth-Century Italy: Galvani, Volta and

Others”, in F. Bevilacqua, org. Nuova Voltiana: Studies on Volta and his Times, Vol 1, p.101.

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Nicolas Bertholon e o italiano Giuseppe Gardini. Em 1780 Bertholon já

falou de uma eletricidade animal e de uma eletricidade humana”. 38

Apesar dos vários estudos sobre eletricidade animal, a controvérsia gerada

entre Galvani e Volta durou muito tempo e, portanto, merece uma análise mais

detalhada.

Dentre as muitas pesquisas que foram realizadas por Galvani39, cabe

destaque às observações relacionadas aos fenômenos de contração que ocorriam

em rãs dissecadas, cujos membros inferiores eram conectados por metais, isto é,

quando o nervo interno da perna de uma rã era tocado por um bisturi, a perna

sofria uma contração.

Quase dez anos de pesquisas, levaram Galvani a supor que o próprio

animal produzia eletricidade ou algum tipo de fluído nervoso semelhante à

eletricidade. Para ele, estava claro que os músculos da rã eram capazes de gerar

o que chamava de eletricidade animal, a qual julgou ser similar à eletricidade

gerada por máquinas ou por raios. Sendo assim, Galvani realizou diversas

experiências a fim de tentar descobrir a natureza do fenômeno e na segunda

metade do século XVIII (1791), publicou os resultados de suas pesquisas em De

38

Ibid., p. 101. 39

Galvani publicou “De viribus electricitais in motu musculari commentarius”, em latim na revista da

Academia de Ciências de Bolonha. Trechos traduzidos encontrados em Magie, A source book in physics,

p.421.

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viribus elettricitatis in motu muscular (Sobre as forças de eletricidade nos

movimentos musculares).

Nesse particular, Nahum Kipnis observa que:

“Discutia-se na época se o fluído galvânico era de natureza elétrica,

ou se tinha a origem dentro do animal e por fim se era idêntico ao fluído

nervoso.” 40

Os experimentos de Galvani chegaram ao conhecimento de Volta em 1792.

E, a respeito deles, Volta descreveu a princípio que eles eram “incríveis” e

“milagrosos”41. Assim, numa carta datada de 3 de abril de 1792, encaminhada ao

doutor Baronio, médico assistente do hospital de Milão. Volta comentava com

entusiasmo as teorias de Galvani e afirmava que a rã preparada servia como um

eletroscópio muito sensível de modo que era possível, dessa maneira, conhecer

cargas elétricas que até então não eram conhecidas.42

Praticamente, um mês depois, em outra carta, esta datada de 6 de maio,

ele continuou a aceitar a eletricidade animal proposta por Galvani. Podemos

verificar na leitura detalhada dessas cartas que Volta se empenhou em realizar

tais experiências, procurando reproduzir os experimentos galvânicos e testando-os

de forma significativa, até que, em uma terceira carta de 14 de maio, Volta passou

40

N. Kipnis, “Luigi Galvani and the debate on animal electricity, 1791-1800”, in Ambix, p.118. 41

A. Volta, “Lettera a M. Le Noir de Nanteuil (Note ed Aggiunte)”, in U. Hoepli, ed., Le Opere di Alessandro

Volta, Edizione Nacionale, pp. 10-11; Epistolário, Vol. 3, pp. 143-145 42

A. Volta, “I Sopra L’Elettricità animale”. Opere Scelte http://ppp.unipv.it/volta/Pages/Page3.html

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a suspeitar da eletricidade animal. Em seus escritos de laboratório, conhecidos

somente a partir da publicação de 1918 por terem sido anexados pelos

organizadores ao Le Opere, podemos verificar as preocupações e dúvidas de

Volta sobre a necessidade de se utilizar armaduras diferentes (condutores

metálicos diferentes) ao realizar os experimentos com animais. Assim, questionou

se arcos seriam apenas elos de comunicação, ou seja, agentes passivos, que

ofereciam um caminho, ao fluído elétrico, ou agentes positivos, que se moviam. 43

Ao reproduzir os experimentos, Volta se concentrou em certos detalhes

laboratoriais e muitas vezes foi preciso em suas anotações. Por exemplo, ele se

preocupava com o detalhamento das experiências e das medidas que obtinha em

diferentes situações. De fato, como podemos verificar nos registros laboratoriais,

que datam de 20 Abril a 5 Maio 1792, publicados pela primeira vez em 1918, sob o

título: “Giornale delle sperienze sulla sensibilità elettroscopica delle rane”. Volta

teria observado em suas experiências, por exemplo, a temperatura: “O calor de

depois do almoço é de 18 à 19 graus. Onde, se vê, que tal temperatura passa

para o animal [rã]”.44 Outro ponto interessante, que Volta nos aponta seria a

precisão em que ele teria realizado suas experiências com as rãs, Volta anotava

minuciosamente, a temperatura, como já mencionamos, a hora da dissecação da

rã, quantos graus de afastamento do eletróforo e o tamanho do aparelho.

43

A. Volta, “Memoria prima sull’elettricita animale”, in U. Hoepli, ed., Le Opere di Alessandro Volta,

Edizione Nacionale, Cart. Vlt.,J 12 a,Vol. 1, p. 39-40. 44

A. Volta, “Memoria prima sull’elettricita animale”, in U. Hoepli, ed., Le Opere di Alessandro Volta,

Edizione Nacionale, Cart. Vlt.,J 12 a,Vol. 1, p. 39-40.

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26

Podemos verificar a preocupação com as medidas na explicação que Volta

apresentou sobre o esquema, fig.5., abaixo, segundo Volta:

“Um condutor cilíndrico, grosso [de espessura] de uma polegada, e

comprimento de dois pés e de capacidade quase igual a aquela de um

eletróforo de diâmetro de 8 polegadas [...] em C marca 4 graus e [...] e

em B a palha longa e sutil é 4 vezes mais sensível que o outro [...]”

Figura 5 – Parte da segunda memória sobre a eletricidade animal 45

Cabe observarmos ainda, o cuidado com que Volta teria descrito suas

experiências, utilizando-se por várias vezes de esquemas, possivelmente para

elucidar suas idéias. No manuscrito46, também publicado em 1918, Volta explica

sobre este fio metálico (da figura 6). Que ao passar pela medula espinhal contribui

muito para obtermos uma forte contração em todo o músculo.

45

Imagem obtida no livro U. Hoepli, ed., Le Opere di Alessandro Volta, Edizione Nacionale, Vol. 1, p. 96,

obtida na internet no site http://echo.mpiwg-berlin.mpg.de/content/electricity/volta em 25/08/2006. 46

A. Volta,“Preparazione della rana per le sperienze dell’elettricità animale ossia spontanea”, in U. Hoepli,

ed., Le Opere di Alessandro Volta, Edizione Nacionale, Vol. 1, pp. 101-110.

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27

Figura 6 – Experiências com as pernas de rãs.47

Convém acrescentar ainda que, posteriormente, ao se dedicar a reproduzir

os experimentos de Galvani, Volta reconheceu a eletricidade animal existente

somente em peixes elétricos, como o torpedo. Além disso, admitiu o poder de

47

Imagem obtida no livro U. Hoepli, ed., Le Opere di Alessandro Volta, Edizione Nacionale, Vol. 1, p. 105,

obtida na internet no site http://echo.mpiwg-berlin.mpg.de/content/electricity/volta em 25/08/2006.

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28

manipulação apenas no fluído elétrico comum, como observaremos ao longo da

pesquisa 48. Vale lembrar que, até então seus estudos estavam concentrados em

pesquisas de Meteorologia (também chamada por Volta de eletricidade

atmosférica) e gases49.

Provavelmente, por ser um grande experimentador, sua preocupação em

medir o teria levado a discutir a natureza da eletricidade animal, como podemos

observar na questão imposta por ele na “Memoria prima sull’elettricità animale”:

“Como que definimos a causa, se não se determina a qualidade, a quantidade e

intensidade desse efeito?” 50

A princípio, como já destacamos acima, Volta parece ter aceitado a teoria

da eletricidade animal proposta por Galvani. Todavia, ele logo parece ter concluído

que a eletricidade observada nos experimentos de Galvani deveria ter outra

origem e que o tecido animal apenas conectava51 os dois metais de modo que

atuava simplesmente como um eletroscópio extremamente sensível, diferente dos

aparelhos disponíveis naquela época. 52

48

Fluído elétrico comum ou eletricidade comum - Era normal na época usar o termo eletricidade para se

referir aos fenômenos observados a partir do atrito. 49

A. Volta, Aggiunte, pp. 146-152; in U. Hoepli, ed., Le Opere di Alessandro Volta, Edizione Nacionale, Vol.

3, pp. 25-29. 50

A. Volta, “Memoria prima sull’elettricità animale”, in U. Hoepli, ed., Le Opere di Alessandro Volta,

Edizione Nacionale, p.27. 51

A. Volta apud J. C. Heilbron, “Volta, Alessandro Giuseppe Antonio Anastasio”, in C.C. Gillispie, org.,

Dictionary of Scientific Biography, Vol. 13, p. 76. 52

Aparato utilizado na época que permitia detectar uma descarga elétrica ou o que hoje chamamos de corrente

elétrica.

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De fato, Galvani tinha observado as contrações nas pernas de rãs

submetidas à eletricidade (máquinas eletrostáticas) ou ao contato com pares

metálicos. Por seu turno, Volta concentrou suas experiências no papel que teria o

metal nas contrações. Assim, teria surgido a hipótese de que se os condutores

metálicos tinham apenas o papel passivo de conduzir a eletricidade animal, o

fenômeno deveria ser mais forte com um metal do que com dois metais diferentes.

Desse modo, como bem observa Joost Mertens, analisando várias combinações

de diferentes condutores metálicos e não-metálicos, Volta estabeleceu

comparações entre o que ele denomina de suas forças eletromotoras. Utilizando

um de seus aparelhos em 1796, Volta foi capaz de detectar uma fraca tensão

elétrica produzida por um par metálico. 53

A esse respeito, convém observar que a propriedade que caracterizava a

eletricidade produzida por fricções, desde a Antigüidade, era a capacidade de

produzir atrações e posteriormente repulsões. Essa busca em produzir atrações

ou efeitos semelhantes, ou seja, em aproximar a eletricidade metálica com a

eletricidade comum, parece ter levado Volta a aumentar a tensão produzida por

um par de zinco-prata. 54

Para o historiador J. Mertens é provável que os estudos de Volta sobre os

circuitos com dois metais o conduziram a construir a pilha e a cunhar a expressão

53

J. Mertens, op. ci.,p.304. 54

R. Martins, “Alessandro Volta e a invenção da pilha: dificuldades no estabelecimento da identidade entre o

galvanismo e a eletricidade”, in Acta Scientiarum , Vol. 21, p. 834.

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eletricidade metálica. 55 Já o historiador R. Martins, aborda a questão de forma

distinta, e destaca que:

“Não se deve, no entanto, confundir retórica com argumentação.

Induvitavelmente, Volta queria convencer os seus leitores, em 1797-98,

de que sua hipótese estava correta e bem fundamentada.” 56

Segundo R. Martins, o próprio Volta sabia que não dispunha de evidências

suficientes, e continuava a procurá-las não apenas até a invenção da pilha, mas

também depois disso. Em outro trecho salienta que:

“Volta não dispunha de uma teoria que pusesse explicar

adequadamente o funcionamento da pilha. Qual era o papel do líquido

condutor? Por que motivo a série prata-líquido-zinco-prata-líquido-

zinco-prata-líquido-zinco-etc. funcionava mas a série prata-metal-

zinco-prata-metal-zinco-prata-metal-zinco-etc. não funcionava? Isso

não ficou claro, nem em 1800 nem nos anos seguintes.” 57

Os estudiosos J. Mertens e R. Martins nos dão indícios claros de que, um

dos fatores que, provavelmente, estavam relacionados com a construção da pilha,

era o estudo dos metais. Com efeito, a esse respeito, entretanto, verificamos

certos estudos de Volta sobre os metais nas duas cartas suas endereçadas a

Tibério Cavallo (1749-1809) em 1792, além do seguito (continuação) escrito em

1793. Nessas cartas, Volta, apresentou num esquema, diferentes combinações de

55

J. Mertens, op. ci.,p.301. 56

R. Martins, “Alessandro Volta e a invenção da pilha: dificuldades no estabelecimento da identidade entre o

galvanismo e a eletricidade”, in Acta Scientiarum , Vol. 21, p. 827. 57

Ibid., p. 827.

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31

placas metálicas formando um circuito. Ele varia tanto o número de placas quanto

o metal de que eram feitas as placas, como podemos observar na figura 7, abaixo.

Segundo Volta, se a ação não dependesse dos metais, os resultados nas diversas

combinações deveriam ser o mesmo. Ou seja, ainda no caso de se utilizar apenas

uma placa o efeito deveria ser mesmo maior, como se observa:

Figura 7 – Parte do manuscrito da carta de Volta enviada a T. Cavallo. 58

58

Imagem obtida no livro U. Hoepli, ed., Le Opere di Alessandro Volta, Edizione Nacionale, Vol. 1, p. 228,

obtida na internet no site http://echo.mpiwg-berlin.mpg.de/content/electricity/volta em 25/08/2006.

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“[...] figura 1 [do desenho] seria o caminho mais simples, onde A é

um arco de um condutor úmido, B é um arco metálico de dois

metais diferentes, escreve ainda para B como sendo argento [prata]

e C um arco metálico de zinco, e nesta disposição, a corrente

elétrica se excitará e percorrerá com grande facilidade na direção c

d a...(do zinco para a prata até retornar ao zinco) “59

Volta explicava que, ao tocar no arco metálico (de uma rã preparada), a

ação dependia unicamente da diversidade dos metais que estavam nos extremos.

Não importava qual fosse a sua longitude (tamanho), grossura e forma, o número

e a variedade das peças de que compunham o conjunto, somente, que fosse todo

metálico e que as peças estivessem em contato. 60

Volta reconheceu ainda, nesta carta, que a corrente elétrica em contato

com os metais seguia sempre uma direção bem determinada. Além disso,

observou que o efeito era diferente segundo os metais que eram empregados. Por

exemplo, observava que, empregando zinco e a prata, “a direção da corrente

elétrica, vai sempre do zinco em direção a outro metal, seguindo o caminho dos

condutores úmidos interpostos, para regressar para este metal ao zinco”. Isso

porque, segundo ele, empregando metais diferentes variava a “força da corrente”.

Assim, Volta procurou estabelecer uma escala, segundo os condutores utilizados,

59

A. Volta, “Account of some discoveries made by Mr. Galvani of Bologna, with Experiments and

Observations on them. In two letters to Mr. Tiberio Cavallo (e seguito)”, in U. Hoepli, ed., Le Opere di

Alessandro Volta, Edizione Nacionale, Vol. 1, p. 228. 60

A. Volta, “Account of some discoveries made by Mr. Galvani of Bologna, with Experiments and

Observations on them”, in U. Hoepli, ed., Le Opere di Alessandro Volta, Edizione Nacionale, Vol. 1, pp.

169-248.

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33

de tal modo que a direção da corrente fosse em sentido da ordem estabelecida

(zinco, folha de estanho, chumbo, ferro e prata), sendo sua força proporcional à

diferença de grau na escala entre os dois metais.61

A preocupação com os condutores também aparece em outras

correspondências, como veremos mais adiante. Dentre elas, três cartas62

encaminhadas ao professor Friedrich Albert Carl Gren (1760-1798) de Halle, entre

1796 e 1797, trazem idéias contrárias à eletricidade animal proposta por Galvani.

Aqui, entretanto, vale a pena mostrarmos um exemplo.

Podemos observar na figura 8 abaixo as anotações detalhadas sobre os

condutores, onde Volta cuidadosamente expõe os pares de condutores.

61

A. Volta, “Parte do manuscrito da carta de Volta enviada a Gren,” in U. Hoepli, ed., Le Opere di

Alessandro Volta, Edizione Nacionale, Vol. 1 62

A. Volta, “Sul Galvanismo, ossia sull’elettricita eccitata dal contato de conduttori dissimili.”, in U. Hoepli,

ed., Le Opere di Alessandro Volta, Edizione Nacionale, Vol. 1, p. 228.

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34

Figura 8 – Parte do manuscrito da carta de Volta enviada a Gren63

Convém observar que muitos são os comentários de Volta sobre os

condutores em suas correspondências. Para termos uma idéia de seu

63

Imagem obtida no livro U. Hoepli, ed., Le Opere di Alessandro Volta, Edizione Nacionale, Vol. 1, p. 398,

obtida na internet no site http: //echo.mpiwg-berlin.mpg.de/content/electricity/volta em 25/08/2006.

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35

procedimento, destacamos a tabela que foi proposta por ele na carta 64 de 27 de

outubro de 1795 dirigida a Anton Maria Vassalli (1761-1825), nessa tabela, Volta

propunha uma escala formada por metais como zinco; cobre; mercúrio (em nota,

Volta adverte que errou na colocação de mercúrio e que na troca, deveria colocar

chumbo); e alguns pedaços de carvão de lenha.

Convém ter em conta que, relativamente às linhas em branco da tabela,

Volta afirma, em um outro trecho da carta, que deveriam existir outros metais e

outros degraus. A respeito dessa escala, entretanto, é importante observar que, tal

como A. Mieli destaca, Volta reconhecia que o carvão de lenha produzia

eletricidade em contato com os metais. O que abriria novos caminhos para

estudos de condutores não metálicos.65

Desse modo, Volta observava que o zinco ocupava o extremo da série, em

contraposição ao carvão de lenha, que se encontrava no outro extremo, de

maneira que, unindo estas duas substâncias era possível ter uma tensão maior. 66

Um exemplo do próprio Volta, facilitará a compreensão:

“Quando zinco e cobre, estão em contato é gerada uma determinada

tensão A; e entre cobre e carvão de lenha, outra tensão B. Sendo A

diferente de B. A tensão que era observada ao se ter o contato do primeiro

com o terceiro condutor (neste caso, zinco-carvão de lenha), será igual a

soma algébrica dos dois anteriores (A+B).”

64

A. Volta, “Nuova Memoria sull’elettricita animale, lettera terza”, in U. Hoepli, ed., Le Opere di Alessandro

Volta, Edizione Nacionale, Vol. 1, pp. 287-312. 65

A. Mieli, op. cit., pp. 116-122. 66

A.Volta. apud. A. Mieli, op. cit.,p.118.

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Além dos motores ou condutores de 1ª classe (metais, o carvão de lenha e

alguns minerais) temos, assim, o que Volta comentava em detalhes sobre os

condutores de 2ª classe, que seriam, por exemplo, as soluções e os corpos

mergulhados nelas e, também, alguns tecidos orgânicos como os nervos. A esse

respeito, Volta comentou na carta a A. M. Vassalli que:

“Dois condutores metálicos intercalados com um condutor não

metálico, da classe que eu tenho chamado de condutor úmido,

porque o fluido esta em toda a massa, e contido em qualquer

humor, de um corpo animal [...] Veremos que se determina uma

corrente contínua de fluido elétrico.” 67

Nessa carta, Volta ainda procurou explicar que o fluído circulava na direção

que ia do metal de primeira classe, que era o mais alto da escala, atravessando o

condutor e os condutores de segunda classe interpostos, voltando logo, em

direção ao primeiro e prosseguindo a circulação. Assim, ele observava que

bastava que não se interrompesse o circulo em nenhum lugar. Esta corrente era

maior quando os condutores de primeira classe eram bem diferentes, de tal modo

que, quanto maior fosse a distância entre os condutores (na escala já exposta),

maior seria a corrente.68

67

A. Volta, “Nuova Memoria sull’elettricita animale, lettera terza”, in U. Hoepli, ed., Le Opere di Alessandro

Volta, Edizione Nacionale, Vol. 1, p. 290. 68

Ibid., p. 302.

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37

As experiências realizadas com condutores, entretanto, não ficavam

restritas ao laboratório de Volta. Elas geralmente eram demonstradas aos seus

contemporâneos como, por exemplo, no outono de 1797 em Como, para Claude-

Louis Berthollet (1748-1822), que então seguia o exército francês na Itália.69 Além

disso, numa carta a A. M. Vassalli, Volta comenta sobre as muitas maneiras e

inúmeras vezes que teria demonstrado seus condutores em ação:

“Depois de ter confirmado minha opinião sobre a eletricidade

propriamente artificial, vinda de uma causa extrínseca, de tê-la

demonstrado de varias maneiras, com a experiência do sabor que

descobri ao encostar com artifícios [arcos] de metais; e sentir o

sabor ácido ou alcalino, segundo os dois metais escolhidos...

Pergunto-me, sobre a ação dos condutores em virtude da simples

localização, quando são de espécies diferentes, que ação

determina a corrente elétrica em movimento (se o circuito condutor

estiver fechado), e se manifesta na mão em quase todas as

experiências, do que se trata [...]” 70

Nas etapas iniciais do estabelecimento dessa teoria (teoria de contato)

havia muitos problemas e poucas evidências favoráveis71. Convém observar que o

estabelecimento da teoria de eletricidade metálica foi o resultado do trabalho

coletivo de vários indivíduos de diferentes nacionalidades. Neste sentido, foram de

69

A. Mieli, op. cit., pp. 116-122. 70

A. Volta, “Nuova Memoria sull’elettricita animale, lettera terza”, in U. Hoepli, ed., Le Opere di Alessandro

Volta, Edizione Nacionale, Vol. 1, p. 304. 71

Sobre as controvérsias de Volta e Galvani ver em U.Hoepli, Le Opere di Alessandro Volta, Vol. 1, pp. 10-

11, 21-23 e 26.

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38

extrema importância os trabalhos de uma série de estudiosos, entre eles G. B.

Beccaria72, que investigavam a existência de uma possível relação entre

determinados metais, em diversas situações. 73

Faz-se necessário aqui apresentar os comentários de Helge Kragh sobre a

eletricidade metálica:

“[...] a ação elétrica gerada por contato metálico foi proposta

primeiramente em trabalhos do filósofo natural britânico Abraão

Bennet datados de 1789. Porém, isto foi uma teoria isolada e

independente da teoria de Volta, cuja idéia tornou-se importante no

desenvolvimento da ciência elétrica e, vários anos mais tarde, é a

teoria geralmente aceita na explicação da pilha [...].” 74

Volta dedicou-se por quase dez anos à elaboração de sua teoria. Suas

experiências procuraram, primeiro, usar pedaços de animais. Mais tarde,

abandonou esse tipo de material e passou a experimentar com metais. Assim,

primeiramente trabalhava com apenas um metal e depois com vários. Conforme

análise do trabalho, de Volta, vemos que ele discutia, pensava, repensava e

dialogava com seus contemporâneos e, muitas vezes voltava a reavaliar suas

experiências. Todavia, até onde podemos dizer que o entendimento de seu

eletromotor era a resposta para as suas inquietações?

72

Em 1769 Volta em homenagem ao padre Beccaria, publica, em latim, sob o título De vi attractiva ignis

electrici ac phaenomenis inde pendentibus, onde ele contesta a teoria relativa a eletricidade. Sobre esse

assunto ver em U.Hoepli, Le Opere di Alessandro Volta, Vol. 3, pp. 6-7, 10-11, 19-20, 23-24. 73

Volta comenta sobre as idéias de Bosckovic “uma força de atração entre o fluído elétrico e a matéria

comum”, a saber: A.Volta, Epistolário, Vol.1, disponível no endereço http://ppp.unipv.it 74

H. Kragh, “Confusion and Controversy:Nineteenth-Century Theories of the Voltaic Pile”, in F. Bevilacqua,

org., Nuova Voltiana: Studies on Volta and his Times, Vol. 1, p. 135.

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Segundo J. Mertens e A. Mieli teríamos indícios para afirmar que sim, ou

seja, Volta na construção do eletromotor já teria evidências que provariam sua

teoria de eletricidade metálica e na busca por aumentar a tensão, Volta teria

idealizado a pilha. Todavia, R. Martins, como observamos anteriormente,

mostrou-nos que talvez fossem possíveis outras análises pertinentes.

2.2. A construção da pilha

O anúncio oficial da pilha aconteceu em 26 de junho de 1800, quando uma

carta, datada de 20 de março do mesmo ano, destinada a Joseph Banks (1743-

1820), presidente da Royal Society de London. Foi lida em sessão desta

Sociedade. A seguir transcrevemos um pequeno trecho:

“[...] O aparato de que vos falo, e que sem dúvida surpreendê-los-á,

é apenas a reunião de certo número de bons condutores de

diferentes tipos arranjados de uma maneira determinada. Trinta,

quarenta, sessenta peças ou mais de cobre, ou melhor, de prata,

cada uma em contato com um pedaço de estanho, ou o que é

melhor, de zinco e um número igual de camadas de água, ou de

algum outro líquido que seja melhor condutor que a água pura, como

a água salgada, ou da chuva e assim por diante, ou pedaços de

papelão ou de couro, etc. embebidos nestes líquidos; quando essas

camadas são interpoladas entre cada combinação de dois metais

diferentes, tais séries alternadas desses três tipos de condutores

sempre na mesma ordem, constituem meu novo instrumento [...] “75

75

A. Volta, “On the electricity excited by the mere contact of conducting substances of different kinds”, in

U.Hoepli, Le Opere di Alessandro Volta, Edizione Nacionale, Vol. 1, p. 565.

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40

Figura 9 – Reprodução da carta a Joseph Banks em 1800.76

Volta explica, na carta, que o aparelho de coluna é muito volumoso e por

isso, apresenta um novo aparelho que chamou de coroa de taças; vide fig. 1 (do

76

Imagem do livro U. Hoepli, ed., Le Opere di Alessandro Volta, Edizione Nacionale, Vol. 1, p. 570, obtida

na internet no site http: //echo.mpiwg-berlin.mpg.de/content/electricity/volta em 25/08/2006.

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desenho). Conhecido hoje como pilha de taças, ou seja, um conjunto de copos

interligados com fios, aos quais estavam presas placas de zinco e prata. As outras

figuras 2 a 4 mostram as pilhas de colunas. Volta sugeriu que os dispositivos

fossem elaborados com discos de zinco e prata (condutores de 1ª classe)

intercalados com discos de papeis molhados com água salgada (condutores de 2ª

classe), formando pares ZAP, ZAP (Zinco–Prata-condutor úmido).

Nesta carta, Volta segue descrevendo suas observações, alterando o

número de placas e efeitos que produziam, conforme a montagem dos pares

(números de placas), e outros efeitos fisiológicos (choques) que eram obtidos.

Nesse particular, R. Martins observa que o conhecimento popular sobre

eletricidade estava associado a descargas elétricas e choques. Afirma ainda que,

toda pesquisa séria do período estava voltada aos fenômenos biológicos, como os

choques de certos peixes e as contrações de pernas de rãs pesquisadas por

Galvani. 77 Em um trecho de sua carta a Banks, Volta observa que:

“[...] O resultado principal, e que compreende todos os outros, é a

construção de um aparelho que, por seus efeitos, isto é pela comoção

que é capaz de produzir nos braços, etc., assemelha-se às garrafas de

Leyden, e melhor ainda às baterias elétricas pouco carregadas, que

agiriam sem descanso, ou cujas cargas, sem nenhuma explosão,

77

R. Martins, “O contexto da Invenção e Divulgação da Pilha Elétrica por Alessandro Volta”, in J. L.

Goldfarb & M. H. M. Ferraz, eds., Anais do VII Seminário Nacional de História da Ciência e da Tecnologia e

da VII Reunião da Rede de Intercâmbios para a História e a Epistemologia das Ciências Químicas e

Biológicas, pp. 285-290.

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seriam elas mesmas restabelecidas, [...], em um impulso perpetuo de

fluido elétrico [...].” 78

Aqui podemos ver claramente a necessidade de Volta em mostrar que o

novo aparelho produzia choques da mesma forma que as enguias e a garrafa de

Leyden. A maior dificuldade encontrada por Volta seria, portanto, em demonstrar

que o circuito com dois metais poderia atrair ou repelir como a eletricidade gerada

por atrito e seus esforços, nesse sentido, perduraram por muito tempo.

Cabe ressaltar ainda que a carta de Volta a J. Banks termina com alguns

questionamentos: “Qual é a eletricidade da pilha?”, “Qual a semelhança com o

torpedo e a enguia?” A respeito de tais questionamentos, Volta afirma que só

saberia dizer que ela, a pilha, foi construída segundo um novo princípio de

eletricidade, ao qual ele havia descoberto há quase um ano, e que as experiências

que sucederam ao novo princípio tomaram seu tempo até o presente (1800). Uma

coisa Volta poderia confirmar: “que existiam condutores que eram certamente os

motores dessa eletricidade no caso de contato mútuo de condutores de diferentes

espécies”. Enfim, ele ainda explica que o aparelho chamado por ele de órgão

elétrico artificial, em analogia às vértebras do torpedo (peixe elétrico), seria devido

ao seu formato. 79

78

A. Volta, “On the electricity excited by the mere contact of conducting substances of different kinds”, in

U.Hoepli, Le Opere di Alessandro Volta, Edizione Nacionale, Vol. 1, p. 565. 79

A carta, “On the electricity excited by the mere contact of conducting substances of different kinds”,

dirigida a J. Banks foi publicada no Philosophical Transactions of the Royal Society (1800) em francês pp.

403-431, no Journal da physique (1800), pp. 344-354, no Philosophical Magazine ( tradução em inglês), pp.

288-311, e no U.Hoepli, Le Opere di Alessandro Volta, Edizione Nacionale, Vol. 1, pp. 563-582 (edição

utilizada para o trabalho).

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43

Como já observamos acima, o trabalho de Volta sobre a pilha foi muito

estudado pelos historiadores da ciência. A esse respeito, queremos apontar para

três deles que, em períodos diferentes, revelam três tendências historiográficas

distintas.

O primeiro deles é A. Mieli, historiador da ciência da década de 20, que em

seu livro a respeito da construção da pilha faz a seguinte afirmação:

“O resultado de dez anos de estudos e polêmicas se manifestou com

a criação da pilha e seu descobrimento é um dos fatores essenciais,

não só na ciência, como também na complexa civilização moderna: a

corrente elétrica” 80

Outro historiador contemporâneo de A. Mieli, J. Mertens, ao qual já citamos,

afirmou que a invenção da pilha não tinha importância sob o ponto de vista

científico de tal modo que ela deveria ser considerada como um dispositivo de

demonstração pública, uma estratégia para promover e convencer as pessoas (o

público em geral) da existência da eletricidade metálica. Nesse sentido, Volta

estaria “apenas” interessado em confirmar e difundir sua teoria e, assim, obter

prestígio. 81 E, enfim, em um artigo sobre Alessandro Volta e a invenção da pilha,

o historiador da ciência R. Martins afirma que:

“Havia, ao final do século XVIII, todo um arsenal de instrumentos

destinados a produzir, acumular, concentrar, transmitir e mostrar os

efeitos da eletricidade [...] grande parte do trabalho de Volta foi

80

A. Mieli, op. cit. , p.113. 81

J. Mertens, op. cit., pp. 301-.311.

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dedicado a esse outro aspecto, tentando mostrar que era possível

obter choques e efeitos eletrostáticos semelhantes, utilizando-se

grandes pilhas e grandes baterias elétricas.” 82

Por esses três exemplos, podemos ver que historiadores de diferentes

épocas e contextos, embora não sejam todos de mesma opinião, apontam,

entretanto, para um ponto em comum. Todos eles nos levam a crer que a

construção da pilha e as idéias de Volta extrapolaram os limites do laboratório. E,

no que diz respeito ao laboratório, o uso de instrumentos e a construção de

aparelhos era parte essencial no empreendimento de Volta.

Por exemplo, na carta enviada a J. Banks, à qual já mencionamos,

concluímos que, Volta objetivava apresentar a descrição do seu aparato elétrico, a

pilha, e, para isso, procurou descrever detalhadamente os materiais utilizados em

sua confecção, mostrando os efeitos fisiológicos que podia produzir nos olhos,

ouvido, braços, etc. Assim, como veremos, essa maneira detalhada de descrever

o aparato possibilitava que a pilha fosse construída por seus contemporâneos.

De fato, Volta propôs ainda outros aparelhos tendo como base a pilha. Tais

aparelhos, que apresentavam o mesmo “formato”, recebiam também o nome de

pilha, em anexo alguns desses aparatos. Julgamos que merecem destaque:

82

R. Martins, “Alessandro Volta e a invenção da pilha: dificuldades no estabelecimento da identidade entre o

galvanismo e a eletricidade”, in Acta Scientiarum , Vol. 21, p.834.

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45

Figura 10 – Experiências com a pilha voltaica.83

Na figura 10, publicada em Bulletin des Sciences em 1801, o aparelho

demonstraria as experiências realizadas na França na presença de Napoleão.

83

Imagem publicada no Bulletin dês Sciences em 1801, 3 Plate IV, o artigo reportava-se as demonstrações de

Volta no Instituto nacional da França em Paris, em 1801, obtida no artigo de J. Mertens, Shocks and sparks

the voltaic pile as a demostration device, p. 310.

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46

Aqui observamos o Eletróforo, o Eletroscópio Condensador, os discos metálicos

(figura 7 do desenho) e a pilha elétrica. Notamos ainda que a largura da vasilha de

água facilitaria a colocação da mão para demonstrar os efeitos fisiológicos

(choque, sabor).

Na carta que Volta enviou para Luigi Valentino Brugnatelli (1761-1818) em 6

de Novembro de 1801 ele descreve cuidadosamente como construir uma pilha,

segundo Volta: “A construção do novo aparelho eletromotor, é muito fácil e muito

cômoda, por que é uma máquina portátil.” 84

Um outro documento mostra Volta cuidado aos detalhes da construção da

pilha. Assim a imagem abaixo, (fig.11) apresenta detalhes da montagem deste

aparato.

84

A. Volta, “Description de la Pile Electrique par Alexandre Volta communiquee par Brugnatelli 1801”, in

U.Hoepli, Le Opere di Alessandro Volta, Edizione Nacionale, Vol. 2, pp. 127-136

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47

Figura 11 - Descrição da pilha elétrica85

Mais um exemplo, o último da preocupação de Volta de como ensinar a

construir um pilha aparece abaixo (fig.12):

85

Imagem contida na carta de Volta a Brugnatelli em 6 de Novembro de 1801, publicada no livro U. Hoepli,

ed., Le Opere di Alessandro Volta, Edizione Nacionale, Vol. 2, p. 132, obtida na internet no site

http://nausikaa2.mpiwg-berlin.mpg em 25/08/2006.

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48

Figura 12 - Pilhas usadas por Volta em um artigo sobre a eletrolise da água.86

No lado esquerdo, a imagem mostra um aparato usado por Volta. Temos

água alcalina de um lado da pilha e água ácida do outro lado da pilha, preservada

no Templo de Volta na cidade de Como. No lado direito, rico em detalhes, temos

um diagrama feito por Volta mostrando a utilização do aparato e o sentido (setas)

em que ocorrem as “reações”.

2.3. Alessandro Volta e a ação química da pilha

Percebemos ao longo de nossa pesquisa que, no século XVIII, era

constante uso de analogias. Um exemplo disso eram as comparações entre os

efeitos observados em peixes elétricos e a eletricidade obtida com pedaços de

animais. Alessandro Volta, como estudioso desse período, também serviu-se de

86

Imagem do livro U. Hoepli, ed., Le Opere di Alessandro Volta, Edizione Nacionale, Vol. 1, manuscrito,

obtida na internet no site http://ppp.unipv.it/volta em 25/08/2006.

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49

analogias. Como salienta em seu plano de aula, até mesmo no estudo de outros

fenômenos, que ele classifica como Magnéticos, descreve-os fazendo analogia

com os fenômenos elétricos.87

Além disso, muitos termos como eletricidade comum, eletricidade animal,

eletricidade metálica, eletricidade artificial, terminologias adotadas por Volta,

tentavam descrever a natureza ou causa da eletricidade. Todavia, uma questão

interessante seria o que ele realmente entendia por Eletricidade?

Para R. Martins, a interpretação de Volta em relação à tensão elétrica

produzida seria que cada metal ou substância condutora possuía uma afinidade

ou atração específica pela eletricidade. Dois metais diferentes, em contato mútuo,

atraiam de formas diferentes a eletricidade neles contida e, por isso um deles se

tornaria mais carregado de eletricidade e o outro, menos.

Deixamos claro como o momento envolvia tais discussões, porém, convém

ressaltar que o termo ou conceito de afinidade foi utilizado em diferentes contextos

e períodos o que resultou em diversas interpretações e interrogações para os

estudiosos.

A respeito disso, o estudioso Trevor H. Levere da Universidade de Toronto

afirmou em seu livro que químicos, filósofos, teólogos e físicos ficaram envolvidos

nos problemas de afinidade química e a compartilhavam em sua elaboração e

87

A. Mieli, op. cit. , p.77.

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50

solução. 88 Predileções em alguns casos, pessoais, religiosas, sociais, ou

filosóficas, mostraram uma influência na formação e desenvolvimento de

suposições sobre a natureza e a inter-relação de matéria e força química. 89

Assim, cumpre examinarmos, neste passo, uma pequena discussão a

respeito do emprego desse conceito em diferentes momentos, para então

aprofundar alguns aspectos das idéias de Volta.

2.3.1. Alguns pressupostos teóricos.

Para elucidar melhor a estrutura de pensamento na qual Volta inseriu-se no

século XVIII, faremos um pequeno recorte sobre os estudos químicos, pois temos

indícios de que ele tomou conhecimento das idéias de afinidade entre as

substâncias. Mas estas idéias estavam inseridas em uma estrutura complexa que

envolvia também outros conceitos cosmológicos. Assim, tentaremos evidenciar

que elas somente tinham sentido em tais contextos.

Neste sentido, faz-se necessário examinar o que aconteceu para

compreender o pensamento científico de Volta, pois, quando olhamos a gênese e

o desenvolvimento dos conceitos, eles adquirem novos significados. Assim,

88

T. H. Levere, Affinity and Matter: elements of chemical philosophy 1800-1865, p. xi. 89

Ibid., p.xii.

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51

consideramos importante apresentar alguns aspectos dos vários significados

atribuídos à afinidade ao longo do desenvolvimento do conhecimento químico.

Como podemos observar nas palavras do historiador R. Multhauf (1919-2004):

“A idéia de afinidades é arraigada na noção de simpatias e antipatias,

e pode ter encontrado sua expressão mais antiga no Pré-socrático,

Empédocles, mas é provavelmente muito mais antiga, pois ela está nas

bases da magia e astrologia. Encontrada também nas doutrina de

macrocosmo e microcosmo, tanto nos tempos Helenísticos e no

Renascimento Europeu. Estava presente na Medicina da Era Romana

até Stahl. Aristóteles falou sobre isso quando ele discutiu a interação e

constituição das “coisas” [...].”90

Devemos, portanto, verificar como afirma R. Multhauf que o uso dos termos

de afinidade, semelhança e simpatia foram utilizados em diversos trabalhos com o

intuito provavelmente de encontrar relações entre os pensamentos:

“Em 1546 Fracastoro publicou um livro sobre simpatias e antipatias,

em que ele considerou numa perspectiva teórica e essencialmente

Peripatética, a simpatia entre “affinia”, ou “similia”. Embora teórica, sua

discussão foi relacionada à mistura e se tornou um tópico comum no

próximo século, quando Sebastian Basso viu “aptidão” como uma

noção crítica para a formação de mistura, Jungius usou termos como

familiaridade, aptidão e afinidade, demonstrando claramente a procura

por uma nova terminologia, enquanto o francês atomista, J. C. Magnen,

postulava uma simpatia entre átomos.” 91

90

R. P. Multhauf, The origins of Chemistry, p.299. 91

Ibid., p.300.

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52

Em relação aos estudiosos do século XVII92, Multhauf afirma ainda que eles

estavam preocupados em descrever o caráter da reação, o antagonismo da

interação entre ácidos e alcais. Entre esses estudiosos, ele destaca J.R. Glauber

que teria escrito: “eu tenho [deste modo] descoberto que metais e minerais são de

afinidade mais próxima com ouro”.93

Cabe salientar que, consoante R. Multhauf, até Robert Boyle (1626-1691)

achou isto necessário (o conceito de afinidade) em suas próprias tentativas para

elucidar a filosofia corpuscular. Ele nos diz que R. Boyle considerava a afinidade

como resultado de formas apropriadas das partículas que lhes permitiam aderir

uma às outras. 94

A historiadora da ciência A. M. Alfonso-Goldfarb, em seu livro Da alquimia a

química elucida possíveis caminhos para interpretarmos o panorama da química

e, assim faremos um pequeno recorte sobre aspectos desse estudo para

compreendermos alguns possíveis pressupostos teóricos de Volta. Em um trecho

de seu trabalho a autora destaca que os estudos referentes à química até R. Boyle

permaneciam à margem da “nova filosofia”:

92

Para a contextualização em relação ao século XVII existem estudos que valem a pena ser consultados tais

como: A. M. Alfonso-Goldfarb A magia das máquinas. John Wilks e a origem da mecânica moderna, A. M.

Alfonso-Goldfarb, Da Alquimia à Química: um estudo sobre a passagem do pensamento mágico-vitalista ao

mecanicismo. A. M. Alfonso-Goldfarb, “Uma suposta contradição na ciência inglesa do século XVII:

divulgação x sigilo”, in Discurso, Vol. 31, pp. 347-363, A. M. Alfonso-Goldfarb e M. H. M. Ferraz, “As

possíveis origens da Química moderna” , in Química Nova, Vol. 16, pp. 63-68. 93

R. P. Multhauf, op. cit., p.302. 94

Ibid., p.302. Para estudos mais profundos sobre teoria corpuscular de R. Boyle ver: L. Zarteka. A filosofia

experimental na Inglaterra do século XVII: Francis Bacon e Robert Boyle, p.169.

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“Talvez pela complexidade intrínseca dos fenômenos observados,

parecia impossível introduzi-los a uma análise “mecanicista” em termos

exclusivos de matéria e movimento. Tinha-se a impressão de que tais

fenômenos permaneciam melhor explicados dentro do antigo ideário das

“qualidades” e “simpatias”. Olhando esta equação do lado oposto,

podemos ainda interpretar o seguinte: o estudo dos fenômenos químicos

estava tão profundamente ligado a alquimia, que tão bem representava a

antiga visão de mundo, que se tornou algo muito complicado tentar

observá-los sob uma nova óptica.” 95

A. M. Alfonso-Goldfarb analisa que será principalmente, a partir do trabalho

de Sir Robert Boyle que a química iniciará seu complexo, mas irreversível,

processo de incorporação como teoria científica, independente, junto à nova

”filosofia natural”, pois com ele o élan hermético que envolvia o estudo da

micromatéria começa a ser rompido.96

Outro ponto importante, mencionado por A. M. Alfonso-Goldfarb, foi a

modificação da razão pela qual o experimento era realizado, e o próprio contexto

do laboratório:

“Existe um movimento crescente entre os naturalistas do século XVII,

que tem uma de suas maiores expressões na obra de Boyle, de

destruir o elemento mágico e holístico do experimento. A cena do

experimento num laboratório deixa de ser a síntese do cosmo para se

transformar no possante instrumental de análise das partes da grande

máquina em que o universo estava sendo transformado. O sentido, a

95

A. M. Alfonso-Goldfarb. Da Alquimia à Química. p.161 96

Ibid. p.163

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dimensão do próprio experimento enquanto Arte praticada pelo

alquimista e, mais tarde, pelo “estagirista”, fica totalmente desarticulado

diante na nova forma de olhar a natureza.”97

Como diz esta historiadora da ciência:

“Deixa claro não quer delimitar o momento em que a alquimia se

instala na Europa e nem momento em que se inicia o rompimento da

mesma, e que isso não significou a instalação da química moderna,

mas um caminho aberto para esta. “Uma espécie de vazio onde o

cosmo “mecanicista” se delinearia e geraria a ciência moderna.” 98

De acordo com R. Multhauf, a física newtoniana, com sua conotação de

atração entre corpos materiais, produziu uma modificação na idéia inicial de que

definira a incompatibilidade da afinidade com a simpatia e antipatia. Nesse

particular, julgamos os estudos newtonianos importantes para o estabelecimento

do contexto científico em que se operava o corpus de Alessandro Volta.

Segundo A. Mieli, as concepções newtonianas eram pressupostos teóricos

para embasar as teorias de Volta, uma vez que ele:

“[...]em 1793 teve a ousadia de escrever ao abade Nollet uma carta,

onde expunha uma teoria elétrica completa baseando-se na teoria

newtoniana da gravitação.” 99

97

Ibid, p. 168 – Segundo a autora: estagirista- também chamados de “químicos”, seguidores de Paracelso e

van Helmont p.167 98

Ibid., 205 99

A. Mieli, op. cit., p. 47.

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A respeito das idéias newtonianas R. Multhauf diz ainda que:

“Embora Newton fosse notoriamente relutante em publicar suas

idéias em química, ele o fez em várias ocasiões, tomando nota da ação

de diferencial de água régia e água forte, em ouro e prata, mostrando-

se preocupado em substituir as noções de “sociabilidade” e atração

pelo o mecanismo Cartesiano.” 100

A importância dos estudos químicos de I. Newton pode ser evidenciada nos

estudos de historiadores que fizeram uma releitura de suas obras, dentre eles

podemos destacar B. J. T. Dobbs e o casal de historiadores A.Rupert Hall e Marie

Boas Hall.101, aos quais cabe ressaltar aqueles estudos voltados à questão 31 102,

onde Newton disserta sobre a atração entre os corpos e questionava-se a respeito

da natureza dessas forças. Segundo I. Newton:

“Não têm as pequenas partículas dos corpos certos poderes, virtudes

ou forças pelos quais agem à distância, não apenas sobre os raios

luminosos, refletindo-os, refratando-os e inflectindo-os, mas também

umas sobre as outras, produzindo uma grande parte dos fenômenos da

natureza? Pois é sabido que os corpos agem uns sobre os outros pelas

atrações da gravidade, do magnetismo e da eletricidade; e esses

exemplos mostram o teor e o curso da natureza, e fazem não ser

improvável que haja outros poderes atrativos além desses. Pois a

natureza é muito coerente e harmônica consigo mesma. Como tais

100

R. P. Multhauf, op. cit., p.303. 101

Referimo-nos aos artigos de A.Rupert Hall e Marie Boas Hall. “Newton e a teoria da matéria” in I.

B.Cohen & R. Westfall, orgs., Newton I.; Textos, Antecedentes e Comentários, p. 99 e Betty Jô Teeter Dobbs.

“Alquimia de Newton e sua teoria da matéria”, in I. B.Cohen & R. Westfall, orgs., Newton I.; Textos,

Antecedentes e Comentários, p.383. 102

I. B.Cohen & R. Westfall, orgs., Newton I.; Textos, Antecedentes e Comentários, pp. 62-65.

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atrações podem ser exercidas, não considero aqui. O que chamo de

atração pode ser exercido por impulso, ou por algum outro meio que

me é desconhecido. Utilizo essa palavra aqui apenas para expressar,

de modo geral, qualquer força pela qual os corpos tendam uns para os

outros, seja qual for a causa. [...] Pois devemos aprender com os

fenômenos da natureza quais são os corpos que se atraem entre si, e

quais são as leis e propriedades da atração, antes de investigarmos a

causa pela qual a atração se efetua. 103

Cabe salientar que I. Newton acreditava que a matéria era constituída por

partículas nas quais ele acrescentou os poderes de atração e repulsão. Porém, ele

não explicou a seletividade das atrações químicas e nem as diferenças nas forças

de atração de diferentes tipos de partículas.

A. M. Alfonso-Goldfarb ressalta que: “sabemos do fundo mergulho dado por

Newton na “filosofia mecânica”. Suas preocupações com as questões da matéria

levaram-no ao estudo detalhado dos clássicos no assunto... entre estes textos os

de Boyle.”104

Em outro trecho I. Newton observa: “Quando o sal de tártaro, per deliquium,

ao ser derramado na solução de qualquer metal, precipita o metal e o faz cair no

103

Ibid .p.64. 104

A. M. Alfonso-Goldfarb. Da Alquimia à Química. p.196.

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fundo do líquido sob a forma de lama, isso não indica que as partículas de ácido

são mais fortemente atraídas do metal para o sal de tártaro?” 105

De acordo com os filósofos naturais da época, “especulações” deveriam ser

evitadas. As teorias tinham que basear-se em experimentos ou observações e as

explicações, deveriam ser mecânicas ou se possível, matemáticas.

Como se há de verificar através dos estudos do historiador da ciência A.

Duncan de acordo com a filosofia natural, os fenômenos observáveis eram

considerados resultantes de formas, tamanhos e movimentos de pequenas

partículas indivisíveis. Os químicos começaram, então, a imitar as abordagens e

métodos de áreas mais matemáticas e aceitar explicações mecânicas para as

propriedades das substâncias e a ocorrência de reações. Entretanto, se por um

lado a aceitação de que a matemática era constituída de pequenas partículas

indivisíveis era útil em termos da construção de imagens mentais como as reações

se processavam, por outro, tais imagens eram consideradas especulações,

porque formas e tamanhos de partículas não eram observáveis.106

Nesse ambiente, outras idéias sobre afinidade foram ainda propostas,

discutidas e adotadas.

No que se refere à questão quantitativa, sabemos que na França, por

exemplo, E. F Geoffroy (1672-1731) construiu em 1718 uma tabela semi-

105

I. B.Cohen & R. Westfall, orgs., Newton I.; Textos, Antecedentes e Comentários, p. 65. 106

A. Duncan, Laws and order in eigh-teenth-century chemistry. pp.1-11

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quantitativa de afinidades. Entretanto, como afirma R. C. Mocellin, ele não usou a

palavra afinidade no titulo, mas sim rapport, classificando as reações de acordo

com o grau de facilidade com que as substâncias se uniam umas às outras. Tal

idéia parece ter emergido como “conseqüência natural” da adoção do significado

de afinidade como força de atração. 107

Para os newtonianos, contudo, as reações "interessantes" não eram

suficientes para descrever as afinidades, que, no vocabulário newtoniano,

passaram a ser chamadas de atrações eletivas.

Outros trabalhos tentavam apresentar as idéias de afinidades, entre eles,

podemos citar aquele de Jean Baptiste Dumas, que propôs que os diferentes

arranjos dos átomos eram responsáveis por diferenças nas propriedades químicas

das substâncias, incluindo aí afinidades químicas. A respeito de Dumas, Levere

comenta:

“Suas idéias sobre arranjo de átomos, entretanto, tornou impossível a

obtenção de noções precisas sobre o papel e a natureza das forças

químicas.“ 108

O desenvolvimento dessas idéias na segunda metade do século XIX

fragmentou a questão em energia química e estrutura química, todas de alguma

107

R. C. Mocellin, “A Química Newtoniana”, in Química Nova, pp. 388-396. 108

T. H. Levere, op. cit., p. 160-168.

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forma, originadas de vaga idéia de afinidade.109 Cabe salientar que hoje, nosso

entendimento das reações químicas, não admite qualquer dos significados

anteriormente discutidos para afinidade entre os materiais.

Podemos dizer que esses pressupostos teóricos permeavam os

conhecimentos de Volta, assim ao formular suas idéias, ele apresentava também

uma relação entre os materiais. Como podemos observar em uma carta de 1796,

a qual ele explica a corrente elétrica:

“Compreende que se um arco, de um só metal, vêm a tocar-se com

um outro, dentro de um vaso, com um pouco de água salgada, ou

ácida, ou qualquer humor alcalino, etc. a corrente elétrica não terá

lugar, porque se o arco tocar os dois, teremos duas ações opostas que

se contrabalançam por afinidades porque resultam da oposição de

equilíbrio e um pouco, pelo humor aplicado as duas pontas do arco

metálico homogêneo que é perfeitamente da mesma espécie e da

mesma força. Por que resulta uma estupenda atração.”110

Apresenta ainda mais uma explicação:

“Concluo que, a rapidez da corrente elétrica e conseqüentemente a

força de comoção que aparece, é em razão da tensão elétrica e da

liberdade ou a facilidade da passagem em toda a parte do circuito. Ora,

a tensão elétrica corresponde exatamente, como às experiências de

eletrometrica demostraram, ao número de peças metálicas, dispostas

na ordem conveniente, de como é composta a pilha, [...]. A facilidade

de passagem do fluído elétrico depende da permeabilidade ou

109

R. C. Mocelli, op. cit., p.388-396. 110

A. Volta, Opere Scelte, Vol.3. datada de1796

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faculdade condutora de disco úmido de papel, de pano e semelhantes,

interpostos entre as peças metálicas.”

2.3.2. As ações químicas da corrente elétrica

Em meados do século XVIII os estudiosos se dividiam entre duas posições

quanto à determinação da natureza da eletricidade. O primeiro grupo considerava

que o animal possuía eletricidade ou “fluído neuro-elétrico” como era chamado

naquela época. O segundo grupo admitia que esta “eletricidade animal” era o

resultado da ação do contato de metais111.

A esse respeito, o historiador W. Bernardi, da Universidade de Siena,

desafia a visão daqueles que postularam os “Biólogos” como simpatizantes de

Galvani e os “Físicos”, de Volta e mostram, ainda, que a situação foi muito mais

111

V. Mosini, op. cit., p118.

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complexa do que se descreve. Pois, até mesmo na Universidade de Pavia, berço

científico de Volta, existiam estudiosos que apoiavam Galvani, como por exemplo,

Lazzaro Spallanzani (1729-1799). Segundo as palavras desse historiador:

“No princípio todo mundo era galvanista. Mas não é verdade, como

se diz normalmente, que todos os médicos e biólogos escolheram

Galvani e que todos os físicos escolheram Volta. Por exemplo,

Spallanzani escolheu o galvanismo, mas alguns anatomistas e médicos

como Scarpa, Carminati, Mangili e Baronio escolheram a teoria de

Volta. Por outro lado, alguns físicos e matemáticos como Sebastiano

Canterzani, Anton Maria Vassalli e um associado de Volta na cadeira

de Física na Universidade de Pavia, Carlo Barletti, sempre

permaneceram galvânicos.” 112

Além de identificar os diferentes grupos divididos de acordo com suas

posições, a historiografia atual busca explicar os contornos dos grandes conflitos.

Assim, são analisadas as discussões entre os grupos científicos verificando que

trilharam distintos caminhos no labirinto da pesquisa sobre eletricidade. Volta fazia

parte de um grupo e certamente, o diálogo com essas pessoas foi importante para

a elaboração de sua teoria sobre a afinidade entre as substâncias, ou melhor

dizendo, teoria sobre a interação entre as substâncias. Para alguns historiadores

existem relações entre a teoria de contato e a teoria química, enquanto outros

acreditam que a teoria de contato não seria uma explicação química ou melhor,

não serviria para Volta explicar o que entendia da natureza da eletricidade

112

W. Bernardi, op. cit., p.105.

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produzida na pilha. A esse respeito, acreditamos ser pertinente mostrar essas

abordagens, não esquecendo que tais reflexões históricas foram realizadas em

diferentes contextos:

Para A. Mieli, ao comentar sobre os estudos em eletricidade de Volta, a

explicação sobre a “química” estaria na elaboração da:

“escala dos metais que começa com o zinco (que tem carga em

excesso) e termina com o carvão de lenha (que tem carga por falta) os

quais colocados em contato determinam uma diferença de potencial,

que seria a causa da força eletromotriz desenvolvida na pilha.”113

A tabela a que se refere A. Mieli, ainda que ele não indique a localização na

obra de Volta, podemos encontrá-la em uma das cartas do estudioso italiano a

Giovanni Aldini (1762-1834) em 1798. A tabela apresenta a seqüência: zinco,

estanho, em folha, estanho em chapa, chumbo, ferro, latão, cobre, platina, ouro,

prata, mercúrio, grafite, carvão de lenha. O efeito obtido na utilização dos pares

metálicos seria tanto maior quanto maior fosse a distância entre eles na tabela.114

Percebemos que a teoria do contato e a explicação química se completam,

como analisou V. Mosini em um artigo:

113

A. Mieli, op. cit., p. 50. 114

A. Volta, “Lettere del Citt. N.N. de Como al Att. Aldini, Leterra Prima, 1798, disponível em:

http://nausikaa2.mpiwg-berlin.mpg.de/cgi-in/toc/toc.x.cgi?dir=volta_lettNNA_935_it_1798&step=thumb

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“[...] a teoria química e a teoria de contato não podem ser

interpretadas como uma controvérsia: estas teorias representavam

nada além de hipóteses plausíveis que explicavam o funcionamento da

pilha [...]”115

Num estudo mais detalhado do momento histórico vivenciado por Volta, a

pesquisadora V. Mosini declara que Volta teria explicado a ação química. No

mesmo caminho parece ir o historiador H. Kragh que destaca, em seu artigo, a

longa discussão sobre as interpretações químicas da teoria de contato

estabelecida por Volta. Além disso, acrescenta seu receio quanto ao

questionamento da teoria de contato perante os estudiosos contrários a ela. Este

teria sido o ponto chave para que não tornasse, públicas suas idéias químicas.

Como ele diz:

“Embora Volta, soubesse que a ação da pilha era associada com

fenômenos e substâncias químicas, ele preferiu não mencionar isto,

provavelmente porque ele temia que isso poderia puramente

enfraquecer sua explicação de contato sem a substância química.” 116

No entanto, a melhor forma de mostrar as idéias de Volta sobre as

diferenças químicas dos condutores aparece em resposta às objeções de William

Nicholson (1753-1815) sobre a pilha, ou como ele diz, “à sua teoria dos

115

V. Mosini, op. cit., p. 118. 116

H. Kragh, op. cit., p.135.

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fenômenos galvânicos”.117 Este texto é especialmente interessante, pois Volta

retoma vários de seus trabalhos anteriores para mostrar que tinha havido um

equívoco na interpretação de suas idéias sobre a ação dos diferentes materiais

que compunham a pilha. Ou seja, os condutores secos e os condutores úmidos.

Ele diz nunca ter:

“atribuído aos metais exclusivamente a faculdade de incitar o fluido

elétrico por seu contato mútuo [...] essa faculdade pertence sem

exceção a todos os condutores. Se ela é mais visível entre os metais,

não deixava de se manifestar também no contato de um metal, ou

condutor de primeira classe (como eu chamava os metais e o carvão)

com um da segunda, ou condutor úmido.”118

Para que a ação motora desses condutores se manifestasse sobre o

fluido elétrico era sempre requerido o contato mútuo entre 3 condutores diferentes.

Ou segundo suas palavras:

“[...] para determinar uma corrente elétrica em um circulo condutor, é

necessário que este círculo seja formado ao menos de três desses

condutores diferentes; seja dois da primeira classe diferentes entre si e

um qualquer da segunda, seja dois da segunda também diferentes e

um da primeira, seja enfim todos da segunda classe e todos

diferentes.”

117

A. Volta, “Aux rédacteurs de la Bibliotèque Britannique”, http://nausikaa2.mpiwg-berlin.mpg.de/cgi-

bin/toc/toc.x.cgi?dir=volta_lettNNA_935_it_1798&step=thumb 118

Ibid.

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Volta acrescenta que a combinação ativa de condutores da segunda classe

apenas, em combinações diferentes propiciando um aumento da força elétrica, o

fizera suspeitar que esta seria uma explicação para a eletricidade dos diferentes

peixes elétricos. No entanto, o que antes era uma suspeita se tornara “uma

verdade quase demonstrada” após ter inventado a pilha, pois esta se parecia

muito com os órgãos elétricos do Torpedo, com as lâminas superpostas. Pois,

enquanto a pilha era feita de lâminas metálicas, nos órgãos dos peixes tratavam-

se de partículas membranosas.

Assim como os diversos condutores da primeira classe que apresentavam

efeitos diferentes ao formarem pares na pilha, os da segunda também podiam

apresentar efeito maior ou menor na “impulsão do fluido elétrico”. Ele declara ter

ficado surpreso com a grande atividade de compostos do enxofre e materiais

alcalinos, sendo esta mesmo maior do que aquela apresentada quando se usava

o par prata e estanho.

Volta conclui dizendo nunca ter restringido a expressão de “motores do

fluido elétrico apenas aos metais, mas que os designara somente como os mais

próprios e os mais ativos em geral”.

A análise das idéias químicas de Volta mereceria, sem dúvida, um

aprofundamento maior. Por ora, o que apresentamos mostra que ele considerava

em seus textos as diferentes características químicas dos materiais em seus

argumentos e explicação dos resultados de suas observações.

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De qualquer forma, essa breve análise já se coloca contra as conclusões de

H. Kragh, por exemplo.

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CAPÍTULO 3. A divulgação das idéias de Volta

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Figura 13: Retrato de Alessandro Volta 119

119

Reprodução de Gaetano Bonati de 1814 devido ao busto produzido por Giovita Garavaglia imagem obtida

na internet no site http://dewey.library.upenn.edu no dia 15/08/2006. Posteriormente reproduzida com

pequenas alterações em U.Hoepli, Le Opere di Alessandro Volta, http://ppp.unipv.it, Vol. 1, folha de rosto.

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69

3.1. Diálogos e debates com outros estudiosos.

Ao longo da pesquisa procuramos apontar para aspectos relevantes em

relação a Volta e outros estudiosos da eletricidade, dando especial atenção ao seu

sistema de pensamento. Tal como observa Roderick W. Home, o diálogo entre

Volta e a comunidade daquela época foi estabelecido por meio de

correspondências, acompanhados de publicações na França, Inglaterra e Itália e

pelo contato pessoal.120

Cabe salientar que esses diálogos e debates ocorriam por motivações

distintas, mas que se complementavam. A primeira motivação teria sido

experimental. De fato, Volta demonstra preocupação com a montagem do

laboratório de Física e com a construção de instrumentos científicos,

principalmente, em relação à precisão nas medidas dos fenômenos. Nesse

aspecto, Volta teria buscado o apoio de pessoas que o ajudassem a adquirir os

melhores aparatos para o laboratório. O contato com tais interlocutores ocorria

possivelmente por cartas e por contato pessoal nas suas viagens, como

exemplificaremos com o diálogo entre Volta e João J. Magalhães (1722-1790).

Outra motivação teria sido a divulgação, confirmação e aceitação de suas teorias.

Com efeito, Volta procurou divulgar sua teoria, como já mencionamos, por

correspondências e publicações. Por exemplo, a já citada carta enviada a J. Banks

que posteriormente foi publicada; e pelo contato pessoal com os estudiosos e

120

R.W. Home, op. cit, pp. 115-132.

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estudantes, seja por ocasião de uma viagem ou por ter ministrado aula como

professor de Física Experimental. Podemos dizer que essas duas motivações se

completam na medida em que a melhoraria de um aparato implicaria numa

compreensão maior do fenômeno observado.

As idéias de Volta foram apresentadas à sociedade por meio de textos,

artigos e cartas, nas quais encontramos não só analogias, exemplos, esquemas,

mas também descrição de aparelhos. Nesses documentos Volta discorre de forma

prática apresentando e discutindo os vários instrumentos empregados.

Tentaremos evidenciar nesse capítulo, a partir de algumas correspondências, que

Volta teria buscado, entre outras coisas, precisão nas medidas e, assim, buscando

aperfeiçoar os instrumentos, gerando interlocutores na Itália, e em outros países.

O apreço pelas experiências, como já mencionamos, nos reporta à

mocidade e aos estudos em Como onde Volta realizou várias pesquisas. Dentre

elas destacamos uma memória publicada em 1771, em latin, sobre a eletricidade.

Tal memória foi endereçada ao professor L. Spallanzani da Universidade de Pavia

e nela Volta descreve em detalhes sua máquina. Além disso, posteriormente em

10 de junho, Volta escreve:

“Nos últimos meses, tenho a satisfação de mostrar minha

máquina a várias pessoas inteligentes, que haviam demonstrado pouca

fé a respeito sobre o que venho falado sobre a força surpreendente

dessa Máquina. Eles certamente não esperavam ver aparecer a faísca

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71

luminosa sobre uma ponta colocada no disco de madeira, a mais de

oito polegadas de distância.” 121

Convém observar que não pretendemos transcrever todas as

correspondências de Volta ou analisar todos os seus trabalhos publicados.

Procuramos apenas apresentar alguns aspectos do debate, sem nos

aprofundarmos nos assuntos de tais discussões, para darmos uma idéia de como

poderia ter sido a divulgação das idéias de Volta.

Volta parece ter estabelecido um diálogo com a comunidade italiana de

forma amistosa. Porém, algumas dessas discussões parecem ter sido realizadas

por meio de debates nada cordiais, como por exemplo, o debate entre Volta e

Galvani que mencionamos no capítulo anterior.122

Dentre os debates, não podemos deixar de mencionar o diálogo que teria

se estabelecido como o conjunto de correspondências entre Volta e o inglês J.

Priestley.123 Nesse particular, segundo R. Home, o conjunto das correspondências

de Volta são de grande valia para o estudo dos ares.124

121

A. Volta, “Novus ac simplicissimus electricorum tentaminum apparatus”, Vol. 3, pp. 53-81. in U.Hoepli,

Le Opere di Alessandro Volta, Edizione Nacionale, Vol. 1, p. 565. 122

W. Bernardi, op. cit., Vol 1, p.101. 123

Para saber mais sobre as pesquisas de Pristley consultar: E.C. Oliosi, Joseph Pristley (1733-1804): uma

seleção de experimentos que revelam a presença do flogístico. Dissertação de mestrado em História da

Ciência. São Paulo, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2004. A. Mieli nos esclare: Entre vários

estudos de gases, Joseph Priestley, em 1772, teria descoberto o “ar nitroso”. Conservando separado este gás,

aparecia como um ar incolor e transparente, mas quando entrava em contato com o ar comum, produzia

vapores. Nessa época J. Pristley teria notado que a parte consumida de ar comum era a que alimentava a

combustão e a respiração, e propôs usar esta reação para medir a “bondade” do ar; no artigo publicado em

1772, no Philosophical Transactions of the Royal Society of London Priestley propusera-se medir a "diferente

disposição dos ares para respiração" utilizando um eudiómetro, tendo concluído que quanto mais rico o ar era

em "ar deflogisticado" mais saudável ele era. 124

R.W. Home, op. cit., pp. 115-132.

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Numa das cartas a J. Priestley, Volta apresenta ilustrações, observações

e detalhes do aparelho, e comenta que: “Mas cuidado e atenção, para ver o

grande efeito: é necessário primeiramente ter cuidado com toda a construção”, o

estudioso conclui a correspondência assim: “me atrevo também a dar um nome

para o meu pequeno aparelho, que seria eletróforo perpetuo”.

Numa outra correspondência entre Volta e J. Priestley, datada de 2 de

setembro de 1777, Volta fez observações sobre o seu eudiómetro para J.Priestley.

Nessa carta, Volta curiosamente aponta para questões quantitativas ao perguntar

que: “O que o senhor me diz dessa novíssima forma de eudiómetro?”. Cabe

acrescentar que, nessa correspondência, o estudioso teria se referido ainda sobre

as quantidades de ares necessárias para obter uma explosão melhor,

apresentando uma mescla ou mistura do “ar comum” e do “ar inflamável metálico”.

Neste trabalho não nos deteremos aos aspectos “químicos” encontrados

nos trabalhos e cartas de Volta sobre os ares (gases), mas faremos uma sucinta

retomada a fim de entendermos o diálogo que teria acontecido.

Na carta, de Volta para Martinus Van Marum (1750-1837), datada de 26 de

novembro de 1798, Volta se remetia aos químicos e à química pneumática, que já

estavam presentes na Cultura Italiana. E ressalta que: “vocês deviam conhecer

minhas descobertas sobre o ar inflamável”. 125

125

A. Volta, “Due Lettere a Martino Van Marum-Lettera Prima”, in HOEPLI, U., ed. Le Opere di Alessandro

Volta, Edizione Nacionale, Vol.1, pp.119-131.

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Sabemos que Volta embasou seus estudos científicos na química e na

química pneumática, porém, como observamos no capítulo um, seus

organizadores não estavam preocupados com isso, como observa F. Abbri:

“A estrutura das duas edições de seu Opere confirma que a química

era para ser considerada um aspecto secundário de programa

científico de Volta, que era para ser essencialmente conhecido como

físico.”126

Sabemos também, que não existiam limites rígidos e disciplinas bem

definidas, portanto, não devemos rotular com termos “físico”, “químico” ou “filósofo

natural”. Segundo F. Abbri: “um estudo sobre a substância química na obra de

Volta pode elucidar significativamente sua ciência e dispõe algumas informações

relevantes sobre as condições da ciência italiana no final do século XVIII”.

Acreditamos, como F. Abbri, que a expansão da química pneumática no

contexto científico Italiano deu uma oportunidade para uma revisão crítica das

principais doutrinas teóricas e produziu uma pesquisa empírica melhor.

Em relação à influência da química pneumática na Itália, F. Abbri salienta

que:

“Uma pesquisa bibliográfica do período revela que vários estudos de

filósofos Britânicos pneumáticos foram traduzidos, entre eles Hales,

Joseph Black, Nicolas Jacquin, e J. Priestley,[...] talvez essa influência

126

F. Abbri, op. cit., p. 1.

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tenha sido responsável pelos poucos estudos da obra Lavoisier nesse

período.” 127

Cabe ainda acrescentar que Volta nunca publicou um trabalho sistemático

em química, com exceção do Lettere sull´aria infiammabile nativa delle paludi em

1777, e, em uma carta para Senebier do final de 1777, ele anunciou que estava

preparando um Saggio di teorie sulle diverse specie di aria, que nunca foi

publicada.

F. Abbri identifica também três diferentes fases no pensamento de

substância química de Volta. As duas primeiras fases, que podem ser chamadas

de “flogísticas”, compreendem os anos de 1776 a 1782 e 1783 a 1784; e a

terceira, de difícil comprovação, onde Volta teria aceito a teoria do antiflogístico de

Lavoisier. Nesse particular, é importante ter em conta que a Itália no século XVIII,

assim como o restante da Europa, foi palco de discussões de teorias distintas: o

flogístico e antiflogístico, que fundamentaram algumas idéias de Volta a cerca da

composição da matéria.

Alem disso, observamos que se estabeleciam outras formas de diálogos

com a comunidade como, por exemplo, o contato que Volta estabeleceu

pessoalmente com estudiosos de outros paises na sua primeira viagem em 1777 à

Suíça e alguns países próximos. Nesta viagem, Volta se encontrara com vários

127

F. Abbri, op. cit., p. 4.

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sábios e visitara interessantes coleções científicas. Dentre os estudiosos cabe

destacar o vínculo que Volta estabeleceu com Horace-Bénédict De Saussure

(1740-1799) e a quem enviou uma carta em 20 de agosto de 1778:

“Há muito tempo me propondo a trabalhar em uma obra sobre

Eletricidade, em que eu reduziria a maior parte dos fenômenos que

estudei da atmosfera elétrica, mas, muitas outras ocupações, e as

buscas de gêneros diversos me colocaram distante dessa proposta, mas

não distante do meu pensamento.” 128

Nessa correspondência para H. B. Saussure, Volta apresenta um estudo

sobre a capacidade dos condutores elétricos.

Após seu destaque como Regente e Professor de física do Liceu de

Como, em novembro de 1778, Volta foi convidado para ocupar o cargo de

Professor de Física Experimental da Universidade de Pavia, cargo este que

ocupou entre 1778 e 1819. Sobre o ambiente da Universidade de Pavia, A. Mieli

explica que as disciplinas de Física não eram divididas, e que isso só teria

ocorrido quando Volta, foi nomeado professor da Universidade, sendo assim

observa A. Mieli que Carlo Barletti (1735-1800) teria passado a ensinar

unicamente mecânica, hidrostática, óptica, etc., e Volta deveria ensinar

eletricidade, calórico, física dos gases, etc.

128

A. Volta, “Osservazioni sulla capacita dé conduttori elettrici e sulla commozione che anche um semplice

conduttore é atto a dare eguale a quella di uma boccia di leyden.” , in Opere Scelte on site http://ppp.unipv.it

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Ao assumir o gabinete de física Volta logo iniciaria a compra de

equipamentos. Essa requisição respondia a uma necessidade, pois, como afirma

em carta para o conde Carlo Giuseppe Firmian (1716-1782)129 em 1779, a coleção

da Universidade era mal equipada.130

Conforme Giuliano Bellodi e Paolo Brenni nos ilustram em suas

observações sobre os instrumentos científicos de Volta, os instrumentos na Itália

eram dotados de pouca precisão. Tal fato teria levado Volta a requisitar a compra

de instrumentos em Londres para a montagem do gabinete de Física da

Universidade de Pavia, do qual ele era responsável. Segundo os historiadores,

naquela época, Londres era um centro de excelência nesse aspecto na medida

em que lá se encontravam alguns dos melhores e hábeis fabricantes de

instrumentos. E assim um outro diálogo parece ter sido realizado por meio da

compra de equipamentos para laboratório. 131 De fato, depois de uma visita a um

laboratório, provavelmente Turim, onde tem como interlocutor G. B. Beccaria,

Volta comenta: “Eu não achei lá nenhuma máquina nova, ou melhor, que as já

conhecidas”.132 Em contrapartida em uma viagem para a Inglaterra Volta

menciona:

129

Alguns historiadores consideram que as correspondências de Volta com Firmiam representaram importante

ligação entre a capital do Império Austríaco e a Lombardia. 130

G. Bellodi & P. Brenni, op. cit., pp. 1-40. 131

Ibid. p.3. 132

A. Volta, Epistolário I, p. 145, apud., A. G. Berzolari, “ Volta”s teaching in Como and Pavia”, in F.

Bevilacqua, org., Nuova Voltiana: Studies on Volta and his Times. Vol. 4, p. 77.

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“A razão por que eu tanto prolonguei minha permanência na

Inglaterra é o fato de tal país ser interressante e assim não se pode

visitar depressa, sendo difícil sair de lá.” 133

Nesse particular, convém observar que a aquisição de aparatos ingleses

parece apontar novamente para a relação entre Volta e os ingleses. Com efeito,

como apontou R. Home, um desses intercâmbios estabeleceu-se em decorrência

da amizade entre Volta e o português João Jacinto de Magalhães (Magellan),

amigo de J. Priestley, que morava em Londres desde o início de 1760. Segundo

R. Home, J. Magalhães teria ajudado Volta a conseguir equipamentos na

Inglaterra para seu laboratório. 134

Percebemos que a idéia de equipar laboratórios italianos respondia não só

a uma necessidade intelectual, mas também histórica.

Como observamos, nestas cartas anteriormente citadas, escritas por Volta

e endereçadas para J. Pristley, vários debates possivelmente ocorreram como

pano de fundo dessas descrições de equipamentos e cabe salientar que, além de

J. Priestley, Volta mantinha correspondências com outros estudiosos. Acreditamos

que o vínculo formado entre J. Priestley e Volta acarretou um debate posterior

entre Antoine-Laurent Lavoiser (1743-1794) e Volta. Segundo A. Mieli, nos anos

de 1781 e 1782 Volta viajou extensivamente pela Europa, incluindo alguns meses

133

A. Volta, Epistolário I, p. 145, apud., A. G. Berzolari, “ Volta”s teaching in Como and Pavia”, in F.

Bevilacqua, org., Nuova Voltiana: Studies on Volta and his Times. Vol. 4, p. 78. 134

R.W. Home, op. cit., pp. 115-132.

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em Paris e outras semanas em Londres. Durante esse período, possivelmente

Volta trabalhou junto com Lavoiser, com observamos na carta que Volta escreve à

Van Marum:

“Você sabe que eu e o senhor Lavoisier temos tentado obter signos

de eletricidade os mais variados, e [...] algum tempo depois, falando

com ele e a outros decidimos apresentar juntos o aparato (a máquina é

minha).”135

Segundo A. Mieli surgiu posteriormente uma desagradável controvérsia

entre eles, devido ao francês querer atribuir os méritos de experiências e

descobrimentos para si sem incluir Volta.136

De acordo com G. Bellodi, com essa viagem entre 1781 e 1782, Volta teve

a oportunidade de encontrar-se com alguns dos principais membros da

comunidade, além de visitar importantes coleções científicas. 137 Sobre a estada

de Volta na Inglaterra, A. Mieli destaca que:

“Na Inglaterra, Volta teve um freqüente contato com William Nicholson

(1753-1815), o sábio que seria o primeiro a fazer uma aplicação proveitosa

da força eletromotora de pilha, estudando seus efeitos químicos.”138

Em 1784, acompanhado de seu colega Antonio Scarpa (1742-1832), Volta

visitou os países germânicos. Além disso, se encontrou com colegas como Johann

135

A. Volta, apud A. Mieli, op. cit., p. 96. 136

A. Mieli, op. cit., pp. 92-96. 137

G. Bellodi & P. Brenni, op. cit., pp. 1-40. 138

A. Mieli, op. cit., pp. 97.

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Peter Frank(1745-1821), H. B. Saussure e Georg Christoph Lichtenberg (1742-

1799), professor de Göttinger.139

Nesse particular, J. Heilbron em seu artigo sobre os representantes das

ciências Físicas em Göttinger descreve importantes diálogos que ocorreram entre

Volta e G. C. Lichtenberg140. O estudioso salienta que G. C. Lichtenberg escreveu

para Volta em 1795 para agradecer seu apoio a De luc em relação a batalha

sobre a evaporação e para felicitá-lo sobre sua investigação da eletricidade

animal.

“Todos estes fluidos tem algo em comum, e quanto mais os

estudamos mais analogias encontramos entre eles. Talvez

através destes descobrimentos parciais encontrarmos finalmente

algo fundamental, sobre as qualidades de um fluído geral,

diferentes de todos os conhecidos.” 141

Por sua vez, Jürgen Krikštopaitis analisou em seu estudo pontos

importantes em relação à pilha de Volta e a sua divulgação na comunidade alemã:

“[...] A descoberta de Volta pegou os cientistas como um desafio

sensacional e se tornou depressa e extensamente disseminado.

139

Ibid., p. 98 140

J. Heilbron, “Figuras sobre un fondo romantico. Representantes de lãs ciências Físicas em Göttinger la

década de 1790”, pp. 186-296. 141

Ibid., p. 202

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80

Ressonou até em distantes centros de atividade intelectual

européia.”142

J. Krikštopaitis observa ainda que os cientistas, ao analisar a pilha de Volta

e ao fornecer explicações da geração de eletricidade galvânica, forçou a rejeição

dos modelos eletrostáticos velhos. Este pavimentou a fundação para

eletroquímica e construiu a estrada para o desenvolvimento da eletrodinâmica.

Percebemos, a partir dos exemplos citados, que Volta estabeleceu

relações não só com os chamados centros de pesquisa, mas também com

culturas bem distintas. Enriquecendo seu pensamento.

3.2. A divulgação na sociedade.

Pretendemos apresentar possíveis impactos que teriam acontecido na

sociedade, em especial a italiana, ocasionados pelas idéias e aparatos de Volta.

Desse modo, iremos apontar os caminhos percorridos para divulgar o seu

trabalho. Tal divulgação parece ter ocorrido em duas instâncias. A primeira por

Volta que apresentava à sociedade científica suas idéias e, a segunda, por

pessoas comuns que se utilizavam de experimentos, por exemplo, e eletrômetro

de Volta, para divulgação os efeitos elétricos produzido pelos instrumentos em

apresentações públicas e, assim, divulgando a imagem do estudioso .

142

J. Krikštopaitis, “The Electroysis of Theodore In the wake of Volt’s Challenge: Grotthuss,1805”, in F.

Bevilacqua, org., Nuova Voltiana: Studies on Volta and his Times, Vol. 5, pp. 83-90

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Nesse aspecto, é importante ter em conta que os trabalhos de Volta devem ser

analisados à luz do contexto daquela época. No que diz respeito à divulgação de

trabalhos, A. Mieli observa que, no Oitocentos:

“Os conhecimentos científicos se propagam em todos os ambientes

da classe superior, inclusive pelas damas [...] em todos os ramos se

constituíam novas disciplinas [...] mas o mais assombroso foi o impulso

que a concepção de mundo, em geral, e no pensamento filosófico e

social, em particular, adquiridos por parte dos enciclopedistas

franceses, entre eles Denis Diderot, e outros pensamentos iluministas,

que foram unidos ao campo prático, pela Revolução Francesa que

proporcionou enormes benefícios, apesar das lamentáveis violências

[...]” 143

Nessa passagem, A.Mieli parece apontar para o fato de que não existia

fronteiras estabelecidas, ou seja, o conhecimento não era compartimentalizado tal

como hoje concebemos de modo que a idéia de especialistas era estranha

naquela época. Desse modo, devemos tomar cuidado ao rotular Volta como

“físico”, “médico” ou “químico”, pois estaríamos cometendo certamente algum erro.

Ou seja, é importante que consideremos o meio no qual o pensamento de Volta se

desenvolveu para não perdermos de vista os pressupostos filosóficos sobre as

quais as suas análises foram pautadas.

143

A. Mieli, op. cit., p. 19.

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82

A esse respeito, podemos citar o estudioso Maurizio Mamiani que, no que

diz respeito às pesquisas científicas na Itália naquela época, observa que:

“A pesquisa em fenômenos elétricos na Itália era apresentada contra

este fundo de concepções não unificadas de física e de incerteza sobre

suas fronteiras com matemática e seus encontros com vida vegetal e

animal. Entre 1790 e 1792 três diferentes teorias estavam presentes na

Itália: Luigi Galvani com a eletricidade animal, Alessandro Volta com o

contato heterogêneo, e Giovanni Fabbroni com a ação química que

devia preceder o efeito elétrico.” 144

Segundo M.Mamiani, os debates entre essas teorias continuaram ao longo

do século XIV. E, emprestando as palavras de Thomas Kuhn, podemos dizer que

elas eram dois modelos científicos contrastantes e incomensuraveis.145

Outra análise interessante, a respeito do diálogo com a sociedade científica,

fez-se no artigo de R. Home, em que o estudioso discutiu as estratégias que Volta

utilizou para se promover e romper com os limites da Itália. 146

R.Home analisa que, no século XVIII, o melhor modo de conseguir

publicidade para o seu trabalho era: “ter seu trabalho discutido nas reuniões da

Académie Royale des Sciences em Paris e da Royal Society em Londres”. E,

144

M. Mamiani, “The Map of Knowledge in the Age of Volta”, in F. Bevilacqua, org., Nuova Voltiana:

Studies on Volta and his Times, Vol. 4, p. 8. 145

Sobre o conceito de incomensurabilidade de Kuhn, ver A. M. Alfonso-Goldfarb, O que é História da

Ciência, pp. 82-87; ver também: T. S. KUHN, A estrutura das revoluções científicas. 146

R.W. Home, “Volta’s English Connections”, in F. Bevilacqua, org., Nuova Voltiana: Studies on Volta and

his Times, Vol. 1, pp. 115-132.

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nesse particular, verificamos ao logo do trabalho que Volta estabeleceu tais

vínculos com estes centros de pesquisa. 147

Um desses vínculos com a sociedade científica estabeleceu-se ns

apresentações de fenômenos elétricos para os estudiosos, nas conferências,

comuns no século XVIII, podem ser consideradas como uma forma eficaz de

divulgação das experiências e das teorias ao mesmo tempo em que dava

destaque a seus estudiosos. Desse modo, no que diz respeito à pilha, observa

Martins que:

“A repercussão [da pilha] foi positiva e imediata. O aparelho foi

reproduzido e utilizado por toda a parte, e em pouco tempo surgiram

novas descobertas científicas importantes, como a decomposição da

água pela eletricidade.” 148

Massimo Tinazzi ressaltar que muitos estudiosos, como por exemplo,

Giovanni Fabbroni, foram motivados por tais exibições a discutir novas idéias e

teorias ou simplesmente pessoas comuns a retomar os estudos.149

Podemos supor que os debates que ocorriam nas apresentações públicas

para a sociedade científica parecem ter proporcionado a troca de experiências

147

Ibid., p. 116. 148

R. Martins, “O contexto da Invenção e Divulgação da Pilha Elétrica por Alessandro Volta”, in .J. L.

Goldfarb & M. H. M. Ferraz, eds. , Anais do VII Seminário Nacional de História da Ciência e da Tecnologia

e da VII Reunião da Rede de Intercâmbios para a História e a Epistemologia das Ciências Químicas e

Biológicas, p. 285. 149

M. Tinazzi, “The Correspondence between Alessandro Volta and Giuseppe Zamboni about the Realization

of the Dry Pile”. pp.91-103.

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culturais e políticas que transpassavam o laboratório e sua formalidade, um

conhecimento produzido pela cultura humana.

Com relação aos instrumentos idealizados por Volta, dos quais analisamos

no capítulo anterior alguns aspectos dessas discussões, verificamos a importância

das atividades práticas para o desenvolvimento de tais teorias. A esse respeito,

entretanto, convém ressaltar que não queremos valorar as apresentações dos

experimentos de Volta para a sociedade, mas apenas apresentar como esses

experimentos foram recebidos na sociedade, em especial na sociedade italiana.

A. M. Alfonso-Goldfarb, ao analisar o contexto da formação da ciência

moderna, observa que:

“Foi crescendo, então, a necessidade de atrair adeptos e conseguir

porta-vozes, propagandistas que convencessem a sociedade a ter

simpatia pela nova causa da ciência e lhe dessem apoio. Ficaram

famosas já desde o século XVII até parte do século XVIII as

demonstrações públicas de experimentos científicos curiosos ou

intrigantes e até polêmicos.”150

Outro ponto interessante é a relação de Volta com as pessoas comuns que

provavelmente teriam divulgado seus aparatos.

Sobre essas divulgações dos fenômenos elétricos, Oliver Hochadel

comenta que os anos de 1760 a 1770 foram marcados por um baixo interresse

150

A. M. Alfonso-Goldfarb, O que é História da Ciência, p. 45.

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público em eletricidade, depois que a onda de entusiasmo dos anos de 1740 a

1750 havia passado. Declara ainda que, o desinteresse pelos fenômenos elétricos

fez com que muitos conferencistas e fabricantes de instrumentos itinerantes151,

que viviam das apresentações e da construção dos equipamentos para tais

propósitos se adaptaram à nova situação e, assim, teriam mudado o ramo de suas

atividades. 152

Com relação a esse desinteresse O. Hochadel salienta que:

“A atenção do público foi reativada no início de 1770 pela invenção

do eletróforo [criado por Volta], um interesse renovado em médicos

sobre a Eletricidade [...] e o debate sobre o Galvanismo nos anos

1790.” 153

O. Hochadel observa que Volta diferenciava o entendimento da eletricidade

dos científicos e dos eletricistas comuns e, provavelmente, sabia da importância

dos mesmos (conferencistas e fabricantes de instrumento itinerantes) para a

divulgação de seu trabalho, além é claro, da fama que isso poderia proporcionar-

lhe.154

151

Termo utilizado na época para descrever as pessoas que divulgavam a eletricidade vide O. Hochadel. “A

Shock to the Public: Itinerant Lecturers and Instrument Makers as Practitioners of Electricity in the German

Enlightenment (1740-1800)”, in F. Bevilacqua, org., Nuova Voltiana: Studies on Volta and his Times, Vol. 5,

pp 53-67. 152

O. Hochadel, “A Shock to the Public: Itinerant Lecturers and Instrument Makers as Practitioners of

Electricity in the German Enlightenment (1740-1800)”, in F. Bevilacqua, org. Nuova Voltiana: Studies on

Volta and his Times, Vol. 5, pp. 53-67. 153

Ibid., p. 65. 154

Ibid., p. 63.

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86

Para tais conferencistas e fabricantes de instrumentos itinerantes a

construção do eletróforo fora de grande valia, já que seu tamanho era muito menor

do que o das máquinas elétricas existentes. O. Hochadel nota que é difícil medir

ou avaliar a contribuição dos conferencistas e fabricantes de instrumentos

itinerantes para a o progresso tecnológico da eletricidade. Mas devia ficar claro

que eles desempenharam um papel crucial no “movimento elétrico”, no seu

esclarecimento, alcançando um grande público, gerando interesse e difundindo o

que importava sobre o assunto, além de fornecer uma base material com seus

instrumentos e serviços. 155

Para O. Hochadel, a divulgação da eletricidade não seria a única razão

para estudarmos tais conferencistas e fabricantes de instrumentos itinerantes,

pois, para ele, essas figuras enriquecem a nossa compreensão do século XVIII.

Nessa passagem de O. Hochadel, parece ficar evidente que o diálogo entre

a sociedade em geral e a comunidade era rica e frutífera. Cabe salientar ainda,

que com esses diálogos a rede conceitual parece ter sido ampliada, de modo que

diversas culturas foram contempladas, e, assim, as idéias de Volta passaram do

gabinete para as ruas, para as mentes de pessoas simples e de autoridades.

Outro ponto importante é o impacto que Volta produziu na cultura italiana.

Para exemplificar tal influência de Volta na cultura italiana, por exemplo,

analisarmos o que aconteceu com a discussão do centenário da criação da pilha.

155

Ibid., pp. 53-67.

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87

Para tal observação é importante voltar a nossa atenção para a forma com

que o “Templo Voltiano” foi construído em Como, cidade natal de Volta. Templo

que segundo os historiadores G. Bellodi e P. Brenni serviria para cultuar Volta

como um Deus. De fato, esse evento estava ligado a outros aspectos da Itália

naquela época. Dentre tais aspectos, podemos destacar que, durante o regime de

Mussolini, era comum cientistas e inventores italianos serem tomados como

gênios para evidenciar a superioridade intelectual e, assim, consolidar o

efervescente nacionalismo italiano.156

Isso significa que, em primeira instância, os instrumentos originais de Volta

foram reproduzidos não com o intuito de estudo, mas sim para serem venerados e

admirados. Mas, excetuando-se esse aspecto, podemos dizer que tais

instrumentos acabaram sendo importante meio de divulgação de suas idéias.

156

G. Bellodi & P. Brenni, op. cit., p. 3.

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88

Figura 14: Instrumentos originais de Volta 157

157

Reprodução da imagem dos instrumentos originais em homenagem ao bicentenário da pilha. Museu de

Como. Obtido no site www.internetculturale.it , no dia 25/06/2006.

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89

Figura 15: Eletrômetros usados por Volta 158

É interessante notar que, ao longo do tempo, a sociedade italiana foi

submetida a diversos símbolos voltianos: notas de dinheiro, selos, carros, torres,

158

Imagem obtida no livro U. Hoepli, ed., Le Opere di Alessandro Volta, Edizione Nacionale, Vol. 1, p. 400,

obtida na internet no site http://echo.mpiwg-berlin.mpg.de/content/electricity/volta em 25/08/2006.

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bustos. E, até mesmo a cidade natal de Volta, Como, atualmente ainda nos

mostram indícios disso, pois persistem ainda várias regiões que recebem o nome

de Volta. Por exemplo, Camnago, que chama-se Camnago Volta.

Figura 16: Nota de 1000 ITL159

Além disso, a Figura acima mostra que, ainda há alguns anos atrás, Volta

seria um símbolo de orgulho para a sociedade italiana. Sua imagem foi utilizada

junto à pilha na frente das notas de 10000 liras italianas, e na parte de traz, a

imagem do templo voltiano.

159

10000 ITL liras italianas que equivalem hoje a aproximadamente 5 euros. Imagem obtida no site

http://www.ecb.int/bc/exchange/it/html/index.pt.html no dia 25/06/2006.

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Figura 17: Divulgação da pilha de Volta para Napoleão em 1801. 160

No templo voltiano, encontramos uma pintura (fig.17) que mostra Volta

apresentando seus instrumentos para Napoleão em 1801.

Podemos dizer que a imagem de Volta foi construída pela comunidade da

qual ele fazia parte. Desse modo, a imagem de gênio italiano foi forjada para

transformá-lo num herói. Todavia, a visão historiografia atual, como nos alerta A.

M. Alfonso-Goldfarb, procura desmistificar a idéia do gênio, apagando aquela

imagem da Ciência como um processo de grandes descobertas de grandes gênios

que pairam acima da capacidade dos pobres mortais.161

160

Imagem obtida no site www.internetculturale.it no dia 25/06/2006. 161

A. M. Alfonso-Goldfarb, O que é História da Ciência, p. 14.

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Considerações finais

Em finais do século XVIII e início do XIX, era freqüente o estudo de

eletricidade. Foi nesse ambiente que Alessandro Volta realizou seus experimentos

e elaborou suas teorias. Como observamos no início desta pesquisa, há vários

estudos a esse respeito que foram publicados com o intuito de compreender

aspectos de seu pensamento. Cabe aqui destacar os trabalhos realizados

atualmente pela Universidade de Pavia, local em que Alessandro Volta foi

Professor de Física Experimental no período de 1778 a 1819. Em sua

homenagem, o Departamento de Física dessa Universidade mantém o projeto

PPP (Pavia Project Physics) e disponibiliza online parte da obra de Volta162.

Em decorrência do bicentenário da pilha em 2000, pesquisadores que já se

dedicavam ao estudo de Volta, tais como Fábio Bevilacqua e Lucio Fregonese,

organizaram a revista Nuova Voltiana: Studies on Volta and his times, na qual são

apresentados vários artigos a respeito de Volta. Mas, cabe notar que há

divergências entre os autores que publicaram nessa revista. Isso sugere que

aquele debate ocorrido por volta de 1800 continua rendendo frutos.

Aliás, o debate parece acompanhar tudo que se refere a Volta. Pois, se, nos

primeiros anos de sua carreira, ele concordava com outro grande estudioso da

eletricidade em sua época, Luigi Galvani, anos mais tarde ele passou a discordar

de suas idéias. Como mostramos, Volta a princípio parece ter aceitado a teoria da

162

Visite: www.ppp.unipv.it/volta

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eletricidade animal proposta por Galvani. Todavia, posteriormente, a negou e

procurou elaborar diversas experiências que pudessem mostrar que a rã seria

“apenas” um eletroscópio sensível. Ou seja, que utilizando a rã como eletroscópio,

os estudiosos poderiam realizar medidas de descargas elétricas que até então

eram impossíveis de quantificar.

Volta seguiu na elaboração de seu trabalho e propôs uma outra teoria,

conhecida como teoria de contato, por meio da qual procurou explicar em que

condições se dava o deslocamento do fluido elétrico. Como apontamos, o

estabelecimento da teoria de contato não foi realização de uma única pessoa.

Pelo contrário, ela foi resultado do trabalho coletivo de vários indivíduos de

diferentes nacionalidades. E, nesse aspecto, apontamos o quanto foi importante

os diálogos mantidos por Volta, que auxiliaram na construção de sua teoria. É

interessante notar a esse respeito que Volta se utilizou de vários termos que

posteriormente teriam sido usados como argumentos contra sua teoria. Por

exemplo, o caso do uso da expressão eletricidade metálica, que o obrigou, em

elaborações posteriores, a explicar que os metais não seriam os únicos

condutores possíveis.

Cabe ainda salientar que, apesar de alguns estudiosos considerarem a

pilha como instrumento apenas de divulgação, Volta julgava ser a pilha

necessária para compreender melhor sua teoria de contato.

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Outro ponto que merece destaque, sem dúvida é o impacto que a pilha de

Volta causou, pois, em pouco tempo, ela foi reproduzida por alguns de seus

contemporâneos, abrindo novos caminhos de estudo. Tais reproduções com

verificamos só tornaram-se possíveis pelo detalhamento e cuidado com que Volta

apresentara seus aparatos.

Em fim, como procuramos mostrar, parece que a controvérsia acompanhou

os estudos de e sobre Volta. Pois, ainda hoje se discute qual teria sido o papel das

explicações químicas para o desenvolvimento das idéias de Volta. As conclusões

dos estudiosos, como vimos, são diversas. De nossa parte, entretanto, tivemos a

pretensão, nesta dissertação, de iniciar um estudo destas questões, acreditando,

porém, que, de fato, Volta levava em conta, de muitas formas, aspectos químicos

dos materiais (dos condutores) ao discutir seu famoso aparato: a pilha. Sem

dúvida, há ainda muito que fazer e esperamos, em futuro próximo, dar andamento

a estas análises.

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Anexo

Instrumentos científicos de A. Volta, guarda do Instituto Lombardo de Ciência e Letra de Milão.

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1- Aparelho voltiano para a primeira experiência de Nicholson da decomposição

água. (N.XXIII)

2- Pilha de coluna de cem peças de cobre e zinco em protetor de lata. (N. XXVIII)

3- Duas pilhas de coluna de cem peças de cobre e zinco, formando um só

eletromotor, usado em Paris. (N. XXVII)

4- Pilha de coluna de quarenta peças de cobre e zinco, com pedaços de papel

ensopados no meio. (N. XXXVIII. E. J. 90)

5- Aparelho utilizado por Volta para demonstrar que a pilha produz água alcalina no

braço de um tubo curvo que contenha água ligeiramente salgada, e produz água

ácida no outro. (N. XXXVII. J.85)